Montanhismo e preservação ambiental

Citar

Frequento listas de e-mails de discussão de algumas entidades representativas do montanhismo brasileiro (eu e outros milhares de montanhistas) e a alguns dias atrás recebemos a mensagem abaixo de um montanhista e escalador brasileiro que dispensa apresentações (sobretudo no meio “montanhístico”). Com um longo histórico de ações a favor do universo das montanhas acrescentando ainda trabalhos em prol do meio-ambiente André Ilha compartilhou com o público destas listas de e-mails as informações abaixo.

Ao ler, além de alegre com as boas notícias, também fiquei instigado a tornar a informação acessível a mais pessoas, e não somente aquelas que tem acesso aos e-mails das listas fechadas (ainda que possam ser acessadas por qualquer pessoa, desde que saibam como chegar nelas). Imediatamente solicitei por e-mail a autorização do próprio André Ilha para publicar neste blog que vos escreve.

Em uma “realidade informacional” dominada por uma “grande mídia” focada na violência e nas más notícias, nada melhor que multiplicarmos boas notícias como estas. Agradeço grandemente a autorização do autor pela publicação de seu relato aqui no Wilo Montanhas.

Não editamos de forma alguma o conteúdo afim de manter a originalidade total do relato. Mensagem escrita em 18 de março de 2014, e complementada pelo autor em 19 de março. Para quem não sabe, INEA é o Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro (conversem com o onipresente ‘google’ que ele informa mais a respeito).

Uma carta aberta e interessante que nos mostra que montanhismo e preservação ambiental realmente sempre tiveram, e terão, tudo a ver.

“Caros e caras,

Amanhã ou depois terá sido publicada a minha exoneração do cargo de diretor de Biodiversidade e Áreas Protegidas do INEA, no qual estava desde a criação do órgão, em janeiro de 2009, em continuidade ao cargo de presidente do IEF/RJ, onde estava desde setembro de 2007, por sua vez em continuidade ao cargo de Superintendente de Biodiversidade da secretaria de estado do Ambiente. Decisão da nova administração.

Nestes anos todos, eu e uma dedicadíssima equipe pegamos as unidades de conservação estaduais do RJ num estado de completa indigência, e graças ao decisivo apoio do Secretário de Estado do Ambiente, Carlos Minc, que depositou na gente uma confiança extraordinária, conseguimos estabelecer um sólido sistema de unidades de conservação.

Permito-me apresentar, para os que eventualmente se interessem, um balanço bem resumido do que fizemos nestes anos frenéticos. Porém, mesmo resumido, acabou ficando um pouco extenso, pelo que peço desculpas antecipadas.

Dentre as diversas realizações das quais nos orgulhamos, e muito, destaco:

1) A ampliação sem precedentes da área protegida do estado do RJ em UCs de proteção integral como parques, reservas biológicas e estações ecológicas, que pulou de 117 mil para os atuais 224 mil hectares, e também de algumas UCs de uso sustentável, como APAs, graças a:

a) criação do Parque Estadual Cunhambebe
b) criação do Parque Estadual da Lagoa do Açu
c) criação do Parque Estadual da Costa do Sol
d) criação do Parque Estadual da Pedra Selada
e) criação do Parque Estadual do Mendanha
f) ampliação do Parque Estadual da Ilha Grande
g) ampliação do Parque Estadual da Serra da Tiririca (duas vezes)
h) ampliação do Parque Estadual dos Três Picos (duas vezes)
i) ampliação da Reserva Biológica de Araras
j) criação da APA do Rio Guandu
k) criação da APA do Alto Iguaçu
l) criação da Reserva Extrativista Marinha de Itaipu

2) A criação de um Serviço de Guarda-Parques consistente, com 280 integrantes, distribuído em todas as UCs de proteção integral, em cuja formação e aparelhamento (uniformes, veículos, equipamentos, EPIs etc.) gastamos mais de R$ 10 milhões, doutrinados para agir como verdadeiros guarda-parques – algo inédito em nosso país (que me perdoe quem disser diferente). Isto faz TODA a diferença na gestão das unidades, e temos colhido muitos frutos positivos desta iniciativa, a despeito de alguns percalços.

3) A criação de um Serviço de Regularização Fundiária, com profissionais apenas dedicados a isso, com veículos e equipamentos apropriados, que pela primeira vez na história do RJ tem logrado desapropriar, pagando a devida indenização aos proprietários, milhares de hectares em todas as nossas UCs de proteção integral.

4) Graças ao trabalho da regularização fundiária, criamos as condições para “tirar nossos parques do papel”, ou seja, para implantar fisicamente todas as nossas UCs de forma mais ou menos simultânea, construindo e inaugurando sedes, subsedes, centros de visitantes, alojamentos de guarda-parques e pesquisadores, guaritas, pórticos, trilhas, mirantes etc., o que confere outra visibilidade e muito melhores condições de administrá-las.

5) Elaboramos e aprovamos os planos de manejo de muitas de nossas UCs, de muitas outras eles estão em fase de finalização, ou em pleno andamento, ou já contratados ou, no mínimo, com recursos já destinados. Elaboramos ainda roteiros metodológicos para planos de manejo de UCs de proteção integral (publicado); de RPPNs (publicado); e de APAs (ainda não publicado).

6) Instalamos, de forma participativa, os conselhos consultivos de todas as nossas UCs, que se reúnem regularmente e servem de suporte ativo à nossa gestão. E, agora, nosso primeiro conselho deliberativo, o da Resex marinha de Itaipu.

7) Criamos o Serviço Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), que até agora já logrou aprovar 69 RPPNs em caráter definitivo e 8 em caráter provisório, além de outros 41 pedidos em tramitação, o que significa mais de 11.000 hectares de proteção integral em nosso estado, nos seus diversos ecossistemas.

8) Criamos o Fundo da Mata Atlântica (FMA), que mesmo ser ser um fundo, na acepção jurídica do termo, é algo que tem sido muitíssimo elogiado, e, agora, também repetido, com adaptações, por gestores de UCs em outros pontos do país. Trata-se de um complexo e inovador mecanismo operacional e financeiro para execução de todos os nossos projetos com recursos não-orçamentários, ou seja, recursos de natureza privada, especialmente, mas não só, as chamadas compensações ambientais. Este mecanismo permite que estes vultosos recursos sejam aplicados de forma bem mais eficiente, ágil e transparente do que todas as demais alternativas existentes, o que responde em parte pelo nosso sucesso geral. Só de compensações ambientais já aplicamos mais de R$ 80 milhões (uma pequena parte sem ser pelo FMA, mas diretamente pelos empreendedores), fora recursos de outras fontes, e um fundo fiduciário com mais de R$ 20 milhões aplicados permite que os nossos chefes de parques e reservas disponham de um valor mensal pequeno, porém desburocratizado, que permite a imediata resolução de pequenos problemas que antes poderiam consumir meses em procedimentos burocráticos inevitáveis até que fosse liberado.

9) Estabelecemos uma política de uso público – ou de visitação, como preferirem – que subverteu o que estava se tornando triste norma em todo o país: “tudo é proibido, salvo se expressamente permitido”. Nossa política, consubstanciada no decreto de uso público nos parques estaduais fluminenses, de maio de 2010, parte do princípio de que “tudo é permitido, salvo se expressa e justificadamente proibido”, e temos elaborado planos de manejo realistas, que no caso dos parques incorporam, na íntegra, os produtos dos seminários de mínimo impacto feitos em parceria com as associações de usuários. Além disso, gastamos milhões em um grande projeto de uso público que visa identificar os atrativos já existentes e os potenciais em cada uma de nossas UCs, e desenvolver estratégias adequadas para cada segmento de visitantes (moradores do entorno, esportistas de aventura, turistas de aventura, turistas comuns, religiosos etc.), e que já apresentou resultados entusiasmantes. O melhor disso tudo é que estamos convictos de que com essa política demófila, digamos assim (em contraponto à política demófoba dos conservacionistas radicais, para os quais todo visitante é visto com suspeição), estamos obtendo MAIS conservação da fauna, da flora, dos ecossistemas e das paisagens naturais notáveis, e não menos como pretendem nossos críticos.

10) Publicamos dois guias de trilhas bilíngues de nossos parques (P. E. Desengano e P. E. Pedra Branca), temos um terceiro já em elaboração (P. E. Serra da Tiririca) e um quarto (P. E. Três Picos) em vias de ser iniciado. Tudo disponível para download gratuito em .pdf e, em breve, também em aplicativos para smartphones e tablets, como parece que tem que ser neste dias de hoje…

11) Chegamos próximos ao ponto de desmatamento zero em nosso estado, e quando todos os ambiciosos programas de reflorestamento que estamos desenvolvendo diretamente, ou acompanhando e monitorando de perto (especialmente o do Comperj, com mais de 4.000 hectares) estiverem implantados, passaremos – talvez já no próximo ano, se não em 2016 – a ter um “desmatamento negativo”, ou seja, ganho real de cobertura florestal em um estado que já é o segundo ou terceiro em termos de manutenção de sua mata atlântica nativa. Isto não significa que novos desmatamentos, inclusive autorizados (em processos de licenciamento ambiental) não ocorram, mas sim que a soma deles, a cada ano, será menor do que a área em um estágio de egeneração tal que passa a ser considerada como floresta novamente, pelos padrões técnicos. E o RJ era antes um campeão de desmatamento da mata atlântica!

12) Criamos uma Gerência de Fauna para absorver todos os procedimentos ligados a fauna que antes eram de competência do IBAMA, como criadores de passarinhos (dezenas de milhares…), zoológicos, criadores de animais silvestres, resgate de fauna em grandes empreendimentos etc., que já está se consolidando.
Etc., etc., etc..

Mais uma vez perdoem-me pelo tamanho do texto.
Agora, retorno à minha profissão de auditor-fiscal, onde também tenho ótimos amigos e colegas comprometidos com a coisa pública.

Abraços e beijos,
André”

Anúncios