Retornando aos poucos…

Caros leitores, amigos e amigas, perdidos da Web, aficionados pelas montanhas e a escalada, peço desculpas pelo longo período de desatualização deste blog. Mas, ao invés de tentar justificar, vamos ao que interessa. Um pouco mais de montanhismo. Depois de praticamente 4 anos ausente nas montanhas, nas listas de discussão, grupos de emails, e qualquer tipo de engajamento, 2014 nos permite um retorno que começou de maneira incrivelmente agradável.

Foi mais precisamente no dia 15 de fevereiro deste ano que acaba de começar. Tentarei ser breve, imaginando já os impacientes e desesperados mais jovens, que só o que conseguem nos dias de hoje é olhar para o próprio perfil em uma rede social estúpida e ficar aguardando a próxima “curtida” inútil de alguém que pensa conhecer. Com a eterna vontade de retornar ao mundo da altitude, da altura, da verticalidade, da trilha que leva acima e abaixo, do ambiente que quase sempre tem seu ar mais frio, resolvemos, eu e esposa, irmos para um lugar nunca antes visitado por nós.

Agora com fotos...início da subida por volta das 8h30. Ainda tem muita, mas muita caminhada pela frente.

Agora com fotos…início da subida por volta das 8h30. Ainda tem muita, mas muita caminhada pela frente.

O Complexo do Marins, ou Pico dos Marins, ou ainda e apenas “o” Marins. Dentre pesquisas e planejamento anterior para colher informações acerca da estrada, melhor caminho, entradas, quilometragem, encontrei uma dica em outro blog, de hospedagem. Na dica dizia “Pousada e Camping Maeda”, e em uma foto do autor estava o dono do local, o senhor Hideki Maeda.

Não imaginava que este senhor, hoje com 73 anos, tem 50 anos de montanhismo nas costas. Pensei, “é para esta pousada que vamos”, se chover e não pudermos subir nenhuma montanha, só a história do Sr. Maeda já vale a viagem. O tempo estava totalmente desfavorável naquele fim de semana. Chuvas e mais chuvas previstas, após a terrível estiagem do verão do Sudeste deste ano. Até nisso pensei, “ótimo, se chover ao menos o ar refresca”. A estrada e o trajeto se mostraram mais demorados que o esperado e só chegamos em Marmelópolis-MG às 20h30, debaixo de muita água. O problema é que da pequena cidade até a pousada do Sr. Maeda, são 6 km de estrada de terra, que obviamente tinha virado muito barro e lama. Bem, depois de três anos com um jipe 4×4, eu estava de carro de passeio (vendi o jipe), um Fiestinha 1.6.

A pousada e camping do Sr. Maeda está em algum lugar ali embaixo no meio deste vale...

A pousada e camping do Sr. Maeda está em algum lugar ali embaixo no meio deste vale…

Atolamos a 1 km da pousada, às 21h, debaixo de chuva. Este foi o começo da viagem, que repito, foi perfeita, e muito agradável (mesmo! rs). Atolados, olhei para minha esposa e disse calmamente: “vamos terminar a pé, já rodamos 5 km, então não vamos andar mais que 1 km”. Procuramos as headlamps, caminhamos alguns minutos e chegamos umas 21h50 no Sr. Maeda que nos aguardava ansiosamente e alegre com a sua esposa ao lado. “Chegaram! Chegaram!”, dizia ele. “Sim senhor Maeda, chegamos, a chuva atrapalhou, e o carro está lá embaixo atolado.”

Imediatamente ele pulou para dentro de seu jipe Mitsubishi IO de 1999 com uma corda velha de escalada e fomos lá resgatar o Fiestinha. No dia seguinte o carro parecia ter mergulhado no barro, mas nada que uma boa lavada não resolveu. Às 7h30 tomamos o café da manhã simples e tocamos o Marinsinho acima.

Perguntei para o Sr. Maeda, “vai chover Seo Maeda, já choveu a noite toda, vai chover, melhor não”, enquanto ele repetia, “não vai chover, não vai chover”. Anoraks, headlamps, água, lanche, e um bivaque na mochila para o caso de sermos pegos de surpresa por algum tempo fechado e pé na trilha. Em 3h20 chegamos no topo do Marinsinho sem uma gota de chuva. E o melhor de tudo, sem nenhuma pessoa na montanha além de nós dois! Isso foi o melhor presente de retorno às montanhas que eu poderia receber. Nada contra pessoas mas subir e descer mais de 2.400m de altitude em um lugar maravilhoso sem ninguém por perto é um privilégio raro hoje em dia.

Um pouco mais acima, primeiro terço da subida, orquídeas como esta amarela à esquerda custam R$ 40 na loja, e aqui cresce no mato.

Um pouco mais acima, primeiro terço da subida, orquídeas como esta amarela à esquerda custam R$ 40 na loja, e aqui cresce no mato.

A poucos minutos do topo. Meio do caminho, sempre tem a volta-descida.

A poucos minutos do topo, que fizemos em 3 horas e 20min. Meio do caminho, sempre tem a volta-descida.

A vista do Marins a partir do topo do Marinsinho.

A vista do Marins a partir do topo do Marinsinho.

Digo isso pois alguns meses antes do Marinsinho fomos até o Pico do Lopo e apesar da beleza do lugar fiquei bastante decepcionado (para não dizer outra coisa) com a farofa local. Eram grupos (hordas) de farofeiros com violão, colchonete mofado, frango assado, sombrero mexicano, cachorro, galinha, papagaio, bote salva-vidas, cigarros, vinho sangue de boi, faca do Rambo na cintura, e por aí vai, todos se achando os donos do lugar e lançando olhares de reprovação aos visitantes no melhor estilo “seus caretas esportistas babacas, saiam da nossa montanha que nós vamos emporcalhar aqui esta noite”.

Mas, lixos à parte e voltando ao que interessa, descemos o Marinsinho em outras 3h30, totalizando 6h50 ida e volta, incluindo todas as paradas para lanches, água, fotos, e contemplação. Confesso que na volta já estava quase morrendo de cansaço e dores nas pernas e pés, além da fome cavalar. Mas isso sempre faz parte das longas caminhadas de montanha, e se agrava quando a forma física está “em atraso”. Em breve posto algumas fotos e novas impressões ou lembranças deste memorável dia.

Montanhas de dinheiro

A maior montanha das Américas, o Aconcágua, recebeu 7 mil pessoas na última temporada. Disso todo mundo sabe, basta acessar esta notícia do AltaMontanha.com. Ao ler a mesma lembrei-me das palavras de um montanhista e colunista do mesmo site, Paulo Roberto Felipe Schmidt, o Parofes, sobre esta montanha, que ele “carinhosamente” chamou de “montanha de dinheiro” em um de seus divertidos textos. Aquilo me fez pensar imediatamente na arrecadação financeira de tamanha visitação ao ponto mais alto do hemisfério sul. Segundo a nota do AltaMontanha, aproximadamente 50% dos visitantes pagaram pela ascensão, e os outros 50%, pelos permisos de trekking (caminhada).

Como gosto de montanhas, e dinheiro, e de montanhas de dinheiro, ainda que não as tenha conquistado até o momento, elaborei o pequeno raciocínio a seguir.

Utilizando os valores cobrados pelo Parque Provincial Aconcagua (www.aconcagua.mendoza.gov.ar), que são os oficiais, e presumindo que estão em Pesos Argentinos (e não em dólares), fiz dois cenários (mais abaixo todos podem entender de onde vem os valores a seguir), e por mera curiosidade, temos os seguintes valores após a conversão para o Real:

Cenário hipotético 1 – “O máximo”
Alta temporada total para ascensão e Trekking Longo
Imaginemos que todos os 7 mil visitantes tenham pago preços de Alta Temporada, e que os caminhantes tenham pago somente o trekking longo. Teríamos neste caso o seguinte faturamento:

(A) R$ 4.546.500,00 + (B) R$ 1.212.400,00 = R$ 5.758.900,00

Cenário hipotético 2 – “O minimo”
Baixa temporada total e Trekking Curto

(C) R$ 1.818.600,00 + (D) R$ 575.890,00 = R$ 2.394.490,00

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Temporada 2011-2012 Aconcagua

7 mil visitantes

ASCENSÃO

50% | 3.500 pessoas

Baixa temporada
R$ 519,60 x 3.500 = R$ 1.818.600,00 (C)

Média temporada
R$ 952,60 x 3.500 = R$ 3.334.100,00

Alta temporada
R$ 1.299,00 x 3.500 = R$ 4.546.500,00 (A)

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TREKKING

50% | 3.500 pessoas

Longo:

Baixa/Média
R$ 285,78 x 3.500 = R$ 1.000.230,00

Alta
R$ 346,40 x 3.500 = R$ 1.212.400,00 (B)

Trekking Curto

Baixa/Média
R$ 164,54 x 3500 = R$ 575.890,00 (D)

Alta
R$ 177,53 x 3500 = R$ 621.355,00

Preços em Pesos Argentinos, convertidos para Real segundo cotação do banco Central do Brasil [http://www4.bcb.gov.br/pec/conversao/conversao.asp], na data de 2/5/2012, e considerados somente preços praticados para estrangeiros (pagam permisos mais caros que os argentinos).

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203 resgates
1 desaparecido
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Como podem notar, a arrecadação pode ter variado entre o mínimo de R$ 2 milhões e um máximo de R$ 6 milhões, isso considerando somente os permisos! Se imaginarmos acréscimos de hospedagem no hotel que fica no campo base da montanha, uso e compras diversas de serviços e equipamentos na província de Mendoza, dá para crer que a economia local realmente deve ficar bastante movimentada, e grata de tanta gastança.

É óbvio que o corpo de profissionais e resgatistas do Parque precisa se sustentar, portanto já é uma justificativa para parte dos valores. Entrei em contato, via e-mail, com o Parque Provincial Aconcagua, solicitando um detalhamento de para onde vai cada centavo destes milhares, ou milhões de pesos, e é claro, a resposta foi o silêncio total. Devem ter pensado, “o que este brasileiro desconhecido que nunca sequer veio aqui quer saber do nosso dinheiro?”. Bem, seria uma obrigação deles como prestadores de serviços públicos em área pública (ou o Aconcágua foi privatizado e só eu não estou sabendo???) prestarem contas, com total transparência, de cada centavo arrecadado.

Enquanto a resposta deles não chega (duvido que algum dia chegará, mas se chegar tenham certeza de que atualizarei aqui) fica aí a curiosidade financeira aos andinistas. Vamos deixar claro também que subir a montanha mais alta da metade sul do planeta é um sonho de muitos, inclusive o meu, portanto, ao ser tão crítico posso parecer aqui invejoso. Mas não é a intenção. Um dia também farei parte desta multidão, talvez. Mas me farei as mesmas perguntas a seguir.

Após pagar e escalar, será que lembrarei o nome de algum guarda-parque local, médico, dono de mulas, motorista do busão, etc? Provavelmente só se estiver no time dos “resgatados” com certeza lembrarei dos guardaparques. Conhecerei alguma comunidade local que se beneficia do uso intensivo da montanha pelos “turistas”? Terei alguma ideia de como fica a situação sanitária na base da montanha após 7 mil pessoas terem feitos suas necessidades (número 1 e número 2) ali? Para onde vai todo o excremento humano ali depositado? O lixo sabemos, é supostamente bem recolhido por todos, segundo regras “rígidas” do Parque (é mesmo?). Qual o impacto de 7 mil pessoas no abastecimento de água potável na montanha? Afinal todos sabemos que é preciso beber litros e litros de água para ficar bem hidratado em sua ascensão “conquistadora” e “aventureira”.

Abre-se aqui outra boa curiosidade, imaginemos expandir o conceito de “montanhas de dinheiro” para a arrecadação proporcionada pelas montanhas do Himalaya, muitos milhares de dólares acima em termos de valores do que o Aconcágua. Picos como Everest (onde a participação em uma expedição não fica por menos de US$ 50 mil por pessoa), K2, e seus irmãos de 8.000m devem render igualmente boas quantias em dinheiro. Mas para quem? Não vejo os sherpas ficando ricos, nem os povos do Tibet, Nepal, ou China, que vivem nestas áreas montanhosas enriquecendo…Quem sabe se um dia eu puder pagar por aventuras como estas descobrirei respostas por conta própria. Por enquanto sou mais propenso a buscar montanhas “gratuitas” e com menos destaque “econômico”.

Montanhismo de olho

Muito boa esta coletânea de fatos elaborada pelo montanhista Parofes, colunista do portal Alta Montanha. Os relatos de diversos outros montanhistas selecionados por ele mostram a importância que nós, montanhistas, representamos para o meio ambiente das montanhas, como cooperadores, vigilantes, denunciadores das palhaçadas que rolam em trilhas e escaladas Brasil afora. Como já era de se esperar, as denúncias e relatos levantados pelo Parofes parecem causar pouco, ou nenhum efeito prático de punição ou resolução de problemas. Mas, a divulgação e a circulação da informação é melhor que nada.

Montanhismo?

Lendo esta entrevista com a montanhista espanhola Edurne Pasaban me pergunto até quando o Everest existirá enquanto montanha. Ela própria chama aquilo de “circo”. Uma porrada de expedições comerciais estão a cada ano entulhando a montanha. Não se trata apenas de deixar o local sujo ou limpo. É a total falta de respeito ao meio ambiente e aos povos (sherpas) da montanha e da região. A mentalidade parece ser só “eu pago, eu subo”. Nunca fui, talvez nunca vá, seja por condições físicas, seja por financeiras (mais provável), mas sinceramente nestas condições gostaria de ver a montanha fechada e proibida. É a montanha mais alta do mundo, não é a disneylandia. Todo mundo quer ir lá, tirar sua fotinha no topo e dizer, “olha só como eu sou fera, olha eu aqui no topo do Everest”. Mas o que fazem pela montanha? O que entendem de montanhismo? Porque se acham montanhistas usando oxigênio suplementar, explorando sherpas para levar água quentinha com chá até a barraca? Porque acham que são “conquistadores” ou “aventureiros” se chegam ao topo com cordas fixas e ficam acampados em barracas que sequer sabem montar? Sinceramente, ridículo. Minha opinião: não consegue fazer por conta própria, não vá.