àvista

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Ogro
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A virgem, o ogro e o monge. Dos três, o ogro levou a fama. E por toda sua fama, eu queria conhecê-lo pessoalmente. Estava por perto, olhei no mapa, descobri o trem, comprei a passagem e fui. Não fazia a menor idéia sobre qual idioma deveria adotar chegando em sua região. Certamente não seria a língua dos ogros.

Obviamente descobriria em poucas horas chegando lá. Nem francês, nem inglês, mas o suíço-alemão, ou alemão-suíço? Bom para mim não fazia a menor diferença, pois eu não falava ou compreendia uma palavra sequer daquele dialeto local.

Nada como chegar sozinho na Suíça para descobrir que lá são aceitos nada menos que três ou quatro idiomas – francês, italiano, suíço-alemão, e o inglês até serve. Claro que com preferências regionais. Se você quiser visitar o “ogro”, o inglês vai te salvar, mas farão cara feia na resposta, afinal você, turista do terceiro mundo, deveria saber o tal suíço-alemão!

Enfim, não estava nem um pouco preocupado com isso, mandei o inglês goela abaixo dos gringos, algum francês se necessário, e adiante para o camping mais próximo (claro nem pense em chegar na Suíça e achar que tem hotel baratinho, o franco-suíço na época valia mais que o euro!).

Aos 27, mas agindo como se tivesse 10 anos, eu queria pelo menos chegar aos pés do “ogro”. Vocês já devem saber que falo do Eiger, provavelmente a montanha mais famosa dos Alpes ou talvez de toda a Europa, quem sabe empatando ali com o Mont Blanc.

Eiger, em suíço-alemão (ou só em alemão?) significa ogro, se bem me lembro. Não estava dando muita importância para a cidade-presépio em que o ogro mora. Grindelwald é realmente um presépio. Gramados perfeitos, casarões suíços, ruazinhas asfaltadas pelas quais quase nunca passam carros, campos de flores, um vale que começa verde embaixo e termina cinza e branco antes de virar azul.

Não que não desse importância para a pacata Grindelwald e seus idosos turistas e moradores, mas meus olhos miravam apenas aquela parede. É realmente impressionante a presença da nordwand sobre a cidade. Ela já se colocou em destaque naturalmente, a fama foi conseqüência.

São 2000m de parede vertical com seções negativas. Hoje virou “carne de vaca”. Já teve quem a escalou em tempo recorde de 2 horas e uns quebrados, já teve quem mandou solo no inverno, solo no verão, em simultâneo, solo com um “base” nas costas ( como ilustra a foto abaixo com o senhor Dean “Pot”), agora só deve faltar mandar a parede descalço, ou coisa do tipo.
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E parece que a fama do Eiger atraiu os famosos. O primeiro grupo a conquistar a parede norte, em 1938, contava com a participação do renomado Heinrich Harrer, o protagonista da bela história real dos Sete Anos no Tibet. O que poucos lembram é que aquele amigo dele, do filme, que se casa com uma tibetana, Andreas Heckmair, também estava na cordada de 1938.

A primeira ascensão da montanha, pela hoje conhecida como via Normal, aconteceu em 1858, 80 anos antes. Certamente desde aquela época os montanhistas já desejavam a face norte, que matou pelo menos uma meia dúzia de aventureiros até a conquista de 38.

Talvez a tentativa mais marcante tenha sido não a de sucesso, mas a que a antecedeu e fracassou, em 1936. Depois da primeira tentativa em 1935, na qual morreram os alemães Karl Mehringer e Max Sedlmayer – que lutaram durante quatro dias na parede e chegaram até a sua metade, mas foram pegos de surpresa por uma tempestade – foi a vez dos compatriotas Aderl Hinterstoisser e Toni Kurz, junto com os austríacos Willy Angerer e Eddie Rainer.

Aderl deu seu sobrenome à também famosa travessia da nordwand. A travessia de Hinterstoisser resolvia um problema chave da parede e abriu o caminho rumo ao topo da montanha e a conquista da face norte. Mas, ao armarem seus bivaques em um local que ficou conhecido como o “Bivaque da Morte”, seus destinos pareciam selados. O local ganhou este nome por ser o mesmo em que morreram os dois alemães da tentativa anterior.
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Na manhã seguinte, ao acordarem, a montanha já havia fechado as portas. A travessia se tornara impraticável, coberta de neve. Resgatadores conseguiram chegar a apenas 100m do grupo, mas lá, a cena era de morte. Hinterstoisser caíra, Angerer estava enforcado pela corda e pendurado, morto, e Rainer também falecera congelado. Kurz estava vivo.

Tiveram de passar mais uma noite suspensos e na manhã seguinte os resgatadores pediram para Kurz armar um rapel e descer até eles. Com muitas dificuldades ele conseguiu armar o sistema, mas sua corda enroscou. Uma avalanche o pegou, foi o fim.

São muitas as outras histórias de vida e morte na face norte do Eiger. A minha não foi nenhum épico. Consegui apenas chegar até sua base e acampar ali. A meta era apenas olhar, como quem vê pessoalmente uma celebridade e fica embasbacado. Foram apenas três dias, mas o ogro fez o favor de dar suas calorosas, ou melhor, geladas, boas vindas.

No primeiro dia, sol, céu azul. Cai a noite, chuva e frio. As nuvens chegam e param na face norte, que age como uma “concha” na vertical, segurando as frentes. Foram horas ininterruptas de chuvas torrenciais, eu não acreditava que estava lá levando uma chuva tão “tropical” quanto às que estamos acostumados por aqui, em plena Suíça.
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Quando minha barraca já estava molhada por completo, ele deu uma trégua e deixou as nuvens partirem. Aproveitei a volta do sol pela manhã, após uma péssima noite, para secar um pouco aquela “lambança”, mas ainda assim tive de partir carregando peso extra graças a água acumulada em roupas e etceteras.

Pensei, “se uma noite aqui na base da nordwand já é ruim assim, imagina lá em cima!” Bem, ruim é modo de dizer, eu largaria tudo para estar lá agora novamente. O Eiger é assim, sempre deixa sua marca. Era de se esperar que em se tratando de um ogro, a coisa não seria fácil. Já a virgem e o monge – Jungfrau e Mönch – que são os outros dois cumes que formam a tríade mais famosa de Grindelwald, devem aproveitar a fama do ogro para guardar seus segredos verticais longe da atenção e dos holofotes.

PS. quem quiser saber mais sobre o Eiger basta buscar no Google para encontrar quase 2 milhões de resultados. Bonne chance.

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Audácia
Uma perspectiva pessoal da história do montanhismo

Mark Twight

O texto abaixo é uma tradução do trecho homônimo, do livro de Twight, “Alpinismo Extremo: escalar alto, rápido e leve” publicado no fim dos anos 90. Muitas escaladas ainda mais difíceis e inovadoras, e rápidas e leves, já foram feitas após as descritas no texto a seguir. Basta uma rápida pesquisa em sites especializados para constatar que a evolução continua. Mas como o autor afirma no final, é conhecendo o passado que o futuro se desenrola.

Historicamente a imprensa de montanha americana prestou pouca atenção ao alpinismo, centrando-se somente em grandes paredes e em ascensões nas quais se sitia a montanha. Houve exceções, obviamente. Os feitos de Messner no Himalaya saíram em primeira página, mas muitos dos feitos conquistados, alcançados por pessoas que escalaram de maneira rápida e leve nos grandes maciços, só mereceram algumas linhas. Sem ser uma lista exaustiva dos avanços do alpinismo, os feitos descritos a seguir influenciaram minha maneira de entender a escalada em montanha.

A escalada em estilo alpino se converteu em arte nos anos 80, mas não teria evoluído sem aqueles visionários que subiram as caras norte do Eiger, do Cervino (Matterhorn / Cervin), das Grandes Jorasses, e outras faces norte dos Alpes nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial. Subir essas clássicas hoje continua produzindo bastante admiração pelos alpinistas que tiveram valor de se aventurar neste terreno desconhecido com o material primitivo da época.

Depois da guerra, se abriram novas vias difíceis entre as que já existiam em todas as grandes paredes. Walter Bonatti abriu uma das vias mistas mais difíceis dos Alpes, na cara norte do Grand Pilier d´Angle, no Mont Blanc, em 1962. Foi um valente passo para o futuro, servindo-lhe de treinamento para a primeira ascensão invernal do Esporão Walker, em 1963, e sua nova via no Esporão Whymper das Grandes Jorasses, com Michael Vaucher, em 1964.

À medida que subiu o nível e melhoraram as técnicas de treinamento, vias que levavam três dias passaram a ser feitas habitualmente em um. Reinhold Messner começou esta moda fazendo em solitário a via Davaille, na cara norte do Les Droites, em 9 horas, em 1969. Até então, os piolets curtos e com lâmina curva eram usados a apenas 3 anos, as lâminas “banana” eram uma quimera e o que se usava normalmente como segundo piolet era um punhal de gelo.

Os anos 70 vieram com a abertura de numerosas vias de gelo vertical nos Alpes e em outros lugares, destacando a Cecchinel-Nomine del Pilier d´Angle e o Couloir (corredor) Nordeste dos Drus, assim como o Super Couloir do Mont Blanc do Tacul. A escalada de cascatas (de gelo) avançou depressa na América do Norte. Com o desenvolvimento dos piolets, a técnica e os conhecimentos, essas vias tiveram repetições rápidas e em solitário.

Como as montanhas não cresciam ou se tornavam mais difíceis, os alpinistas se concentraram na velocidade e na pureza do estilo. Se faziam habitualmente em solitário vias como a norte do Les Droites em 4 ou 6 horas. Para rechear as 18 ou 24 horas restantes, começaram a encadenar paredes no dia. Durante o inverno de 1983, o grande alpinista francês Christophe Profit subiu as caras norte do Les Droites, a Aiguille du Talefre e as Grandes Jorasses (pelo Linceul) em uma única jornada de 21 horas. Em 1989 Patrick Gabarrou cruzou o maciço do Mont Blanc em solitário, subindo várias caras nortes.

Essa época de encadenar escaladas nos Alpes alcançou seu clímax em 1996 quando Patrick Berhault e François Bibollet combinaram vias extremamente difíceis no Les Droites (Colton-Brooks), nas Grandes Jorasses (Colton-McIntyre), no Pilier d´Angle (Cecchinel-Nomine) e o Hyper Couloir na cara sul do Mont Blanc. Ainda que restem por fazer outros muitos encadenamentos em maciços do mundo todo, a referência se estabeleceu nos Alpes e é preciso olhar outros lugares para encontrar outros grandes objetivos.

O começo dos anos 90 nos Alpes viveu a abertura de itinerários muito difíceis que transcorriam por formações de gelo efêmeras. Andy Parkin e eu abrimos Beyond Good and Evil na cara norte da Aiguille des Pelerins, em 1992. Scott Bakes e eu subimos uma via nova na cara norte da Aiguille Sans Nom um ano depois e a graduamos como mais difícil que Beyond. Andy e François Marsigny abriram vias parecidas, sendo a mais difícil a Alaskan Freeway no Dent du Caiman, em 1998. Cada nova via era mais comprometida que a anterior.

Paralelamente a estes avanços na Europa, o alpinismo extremo também evoluiu em outros lugares. George Lowe e Chris Jones puseram toda a carne para assar nos 1.800m da cara norte do North Twin, nas rochosas canadenses, em 1974, e subiram até chegar em uma situação na qual não podiam abandonar. Sem comida e sem combustível, e ficando quase sem equipamentos, foi a força de vontade de Lowe e o alto potencial de sobrevivência de Jones que lhes permitiu terminar a ascensão. Acaba o século vinte e esta via segue sem repetição. Em sua maior parte, só montanhas da América do Norte que ainda não foram invadidas por meios de acesso mecânico, exigem o compromisso necessário para se completar uma via como essa.

Em 1977 George Lowe formou cordada com Michael Kennedy para fazer a primeira ascensão do esporão Infinite, na cara sul do Mount Foraker, no Alaska. Esse esporão supõe 3.000 metros verticais de escalada difícil até um cume remoto de 5.200m do qual não é fácil descer. A cordada levou somente nas mochilas o justo para ir com um mínimo de segurança e funcionou de maneira totalmente autônoma durante onze dias.

A escalada alpina de dificuldade chegou no Alaska em março de 1981 quando Mugs Stump e Jim Bridwell fizeram a primeira e, até o momento de escrever estas linhas, única ascensão da cara oeste do Moose´s Tooth. Esta via ultrapassou os limites da imaginação de muitos escaladores, eu incluso, ao tempo que deixou egos de outros no chão. Mugs, pouco depois de fazer isto seguiu com sua subida ao Pilar Norte do Mount Hunter. Em geral não se considera a sua a primeira ascensão porque não continuou até o cume, mas para ele foi uma de suas melhores escaladas. Ele e Paul Aubrey atacaram os 1.200m do pilar com mochilas leves, duas tendas de bivaque e um portaledge para os dois. A via está graduada como 6a/A3, 90-95 graus em gelo e não se fez nenhum outro itinerário de dificuldade comparável nos treze anos seguintes.

Mugs usou seu estilo leve e rápido pelo mundo todo, culminando-o com sua ascensão em solitário no Esporão Cassin do MacKinley em pouco mais de 15 horas, em 1991. Demonstrou que um alpinista com nível e em forma, e com uma mente aberta pode fazer as vias grandes em um só ataque. Mugs, que motivou toda uma geração de alpinistas americanos, morreu em uma greta no MacKinley, em 1992.

Seguindo o caminho traçado por Mugs, ascensões rápidas e leves de vias técnicas tornaram-se mais freqüentes no Alaska. Em 1994 Scott Bakes e eu abrimos Deprivation no Pilar Norte do Mount Hunter, em 72 horas entre subida e descida. Steve House e Eli Helmuth seguiram, em 1995, com sua ascensão da via de 1.800m, First Born, na parede Fathers and Sons do MacKinley, em 36 horas entre subida e descida. House fez em solitário uma rota nova de 2.100m na cara noroeste do Pilar Oeste do MacKinley, Beauty is a Rare Thing, em 14 horas, em julho de 1996. Em 1997, com Steve Swenson abriu uma via de 900m no pilar sul do MacKinley que chamaram de o Pilar de Mascioli. Fizeram a via, graduada de 6b/A0, 90 graus de gelo, em 30 horas, entre subida e descida.

Tendo acumulado experiência suficiente com táticas de ataque rápido nas montanhas do Alaska, Steve tentou algo ainda maior e levando menos material. Em junho de 1998, com Joe Josephson, abriu uma via de 2.160m até o cume do King Peak, um pico de 5.200m junto ao Mount Logan no maciço do St. Elias. As duas mochilas da cordada pesavam 13,5kg no total. Escalaram com uma só corda de 9,4mm a toda velocidade, subindo e descendo em 35 horas.

Durante esta época e em outros lugares, Rolando Garibotti e Doug Byerly subiram em estilo alpino as 37 enfiadas de Tehuelche na cara norte do Fitzroy, na Patagônia. “Rolo” disse que escalar em estilo alpino era “uma maneira de fazer justiça e mostrar respeito a uma parede tão bela e a um pico tão grandioso”. A cordada demorou 48 horas desde que saiu do campo base até regressar ao mesmo.

Adicione à escalada alpina a grande altitude e tudo ficará mais complicado. A tática de ir com pouco peso foi utilizada em gigantes do Himalaya desde épocas tão antigas quanto a tentativa de Alfred Mummery no Nanga Parbat, em 1895. Expedições leves mostraram seu êxito durante a subida austríaca do Broad Peak, em 1957, quando Hermann Buhl e Kurt Diemberger fizeram o cume.

Em 1975, Reinhold Messner e Peter Habeler deram o maior salto da história do himalaysmo subindo o Hidden Peak (conhecido também como Gasherbrum I, de 8.068m) em três dias, entre subida e descida, em estilo alpino puro. Até então, o resto dos cumes de oito mil metros haviam sido alcançados com subidas lentas, usando muitas cordas fixas e acampamentos bem abastecidos, de maneira que quando Messner e Habeler cortaram o cordão umbilical da segurança, entraram no desconhecido.

Três anos mais tarde esta cordada foi a primeira a subir o Everest sem oxigênio, se bem que é verdade que estavam em uma expedição pesada na qual assediavam a montanha. Messner fez em solitário a parede Diamir do Nanga Parbat dois meses mais tarde. Logo, em 1980, subiu o Everest sem oxigênio e solo. Não teve nenhum tipo de ajuda acima do acampamento base nos três dias que durou a ascensão. Os alpinistas, com os olhos já abertos, começaram a aplicar a tática de expedições leves no Himalaya, e os europeus dominaram a cena do estilo alpino em altitude.

Em 1982, Doug Scott, Roger Baxter-Jones e Alex McIntyre aproximaram-se da cara sul, ainda virgem, do Shishapangma e começaram a escalar. Depois de três bivaques, fizeram cume em estilo alpino. Abriu-se a veia, e a velocidade se converteu no novo espírito da escalada em altitude.

O ano de 1985 foi incrível quanto às escaladas no Himalaya. Benoit Chamoux fez o Esporão dos Abruzzis do K2 em 23 horas, somente dois dias depois de subir em solitário o Broad Peak em 16 horas. Eric Escoffier subiu o K2, o Hidden Peak (Gasherbrum I) e o Gasherbrum II no período de um mês. Estas ascensões não foram estritamente em estilo alpino, já que se beneficiaram da presença de trilhas e cordas fixas de outros alpinistas. Ainda assim, com cada ascensão se ganhava mais conhecimento.

Erhard Loretan escalou com Escoffier no K2. No outono anterior Loretan havia feito a primeira ascensão da aresta leste do Annapurna com Norbert Joos. Percorreram 7 quilômetros e meio de aresta entre 7.000 e 8.000 metros, bivaquearam duas vezes acima dos 8 mil metros e atravessaram a montanha, descendo pela cara norte. Após o K2, Loretan arrematou o ano unindo-se a Jean Troillet e Pierre-Alain Steiner na primeira invernal da cara leste do Dhaulagiri, fazendo-a em 36 horas.

Em cada uma destas ascensões, Loretan foi reduzindo mais e mais seu material, até que sua cordada subiu sem mochila no Dhaulagiri. Nesta época, o que Wojtek Kurtyka chamou de escalada “a pelo”, alcançou seu máximo expoente em agosto de 1986, com a destacável subida do Everest em 43 horas, entre subida e descida, por Loretan e Troillet.

Além das subidas rápidas e sem oxigênio, as montanhas de 8.000 metros também viram ascensões técnicas. Em 1984, dois catalãos, Nil Bohigas e Enric Lucas acabaram uma via que haviam tentado René Ghilini e Alex McIntyre na imponente cara sul do Annapurna (McIntyre morreu por uma queda de pedras enquanto descia da parede em 1982). Essa cordada, extremamente audaz, passou seis dias em uma parede que concentrava as maiores dificuldades a uns 7.100 metros (6a/A2, 80 graus em gelo). Mais acima entraram na via dos Polacos e, após fazer cume, rapelaram a via (2.500 metros verticais) até o acampamento base em um só dia.

Os 2.500 metros da cara oeste do Gasherbrum IV (7.925 metros), conhecida com o a Parede Resplandecente, viu numerosas tentativas no começo dos anos 80. Em 1985, Wojtek Kurtyka e Robert Schauer subiram em estilo alpino, mas não fizeram cume por algumas centenas de metros. Presos em uma tempestade de dois dias no alto da parede, ficaram sem comida e sem água. Começaram a ter alucinações. Schauer acreditava ser um grande corvo, sobrevoando seu próprio corpo, esperando para fincar-lhe o bico até deixar só os ossos. Quando passou a tempestade, decidiram descer e sobreviver antes de correr o risco de atravessar até o cume principal.

Uma última via em um 8.000 merece atenção, porque marcou o começo de um período em que os eslovenos começaram a dominar a escalada no Himalaya. Em 1991, dois eslovenos muito ativos e visionários, Marko Prezelj e Andrej Stremfelj, subiram a impressionante aresta sul do Kangchengjunga à vista e sem ajuda. O alpinista e escritor Stephen Venables considera esta subida como “uma das mais audazes de todos os tempos”. Estas três escaladas (do Kangchengjunga, da Parede Resplandecente, e da face sul do Annapurna) são um claro expoente do compromisso e da segurança em si próprio necessários para subir em estilo alpino qualquer montanha.

Prezelj e Stremfelj continuaram seu êxito do Kangchengjunga com uma escalada de 2.000 metros da extremamente perigosa face sudeste do Menlungtse (7.181 metros). Ainda que não seja um 8.000, montanhas como o Melungtse foram cenário de muitos avanços técnicos nos últimos anos.

Mick Fowler e Victor Saunders subiram o Golden Pilar do Spantik (7.028m) no Paquistão em sete dias, em 1987, em um esforço futurista. Os 2.100m de via no pilar noroeste da montanha tinham mais de vinte cordadas de grau V escocês (e em alguns pontos ainda mais dificuldade), escalada artificial e seguros duvidosos. A pobre qualidade da rocha e o gelo fino davam poucas oportunidades para montar rapeis, de forma que meter-se nesta parede exigiu muita decisão.

A face norte do Changabang (6.848m) na Índia, ainda que não tão comprometida, é tecnicamente mais difícil que o Spantik, com enfiadas mantidas de IV e V grau escocês arrematados com passos chave de VI (descritos na típica subestimação britânica como “difícil”). O mal tempo e a ventania dificultaram a subida, em 1997, de seus 1.600m de parede. Mick Fowler e Steve Sustad se uniram a Andy Cave e Brendan Murphy na parte alta do Changabang após começar a subir com um dia de diferença. Acabaram escalando juntos, permanecendo mais de uma semana na parede. Descreveram muitos dos bivaques como “daqueles que criam caráter”, sentados e expostos a um vendaval contínuo. A descida exigiu outros seis dias nos quais Murphy morreu em uma queda. Fowler denominou mais tarde esta ascensão como “a maior aventura de minha vida”, mas admitiu que talvez tivessem exagerado “um pouco”.

As histórias de escaladas extremas mencionadas nestas páginas dão outra idéia da história do alpinismo moderno e das muitas disciplinas possíveis que existem dentro do estilo alpino. Todas apontam para um futuro no qual as vias que ontem se assediavam com técnica pesada acabarão sendo feitas em ataques rápidos, “a pelo” e por alpinistas com talento e mentalidade aberta, que surgem, aos gloriosos e ao mesmo tempo penosos, esforços de hoje.

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UIAA DISCUTE VALORES, TREINAMENTO, GRADUAÇÃO E REGISTROS DE ACIDENTES

A Comissão de Montanhismo da UIAA, em seu último encontro na Turquia, trabalhou na discussão de programas nacionais de treinamentos, em atualizações da Declaração do Tyrol, em estatísticas de acidentes, e em graus de escalada.Recebido pela Federação Turca de Montanhismo o evento tratou de assuntos de importância internacional. Uma das partes principais dos trabalhos da comissão é utilizar as capacidades e experiências de outros países que tenham programas nacionais de treinamento de guias e fazer com que eles possam ajudar outros a desenvolverem seus próprios programas.

A empreitada foi apoiada pela Fundação Petzl para estabelecer um programa aprovado pela UIAA em nações do sul asiático. O projeto será executado pela Associação de Montanhismo do Nepal, e um projeto similar acontece na Índia.

A Declaração do Tyrol
A Declaração do Tyrol é uma junção de valores e afirmações internacionalmente reconhecidas que dão diretrizes às melhores práticas em esportes de montanha. A declaração foi revista pela comissão, que atualizou algumas observações sobre o uso de cordas fixas, o uso de drogas para aumento de rendimento físico, e o uso de oxigênio suplementar. A revisão será encaminhada à Assembléia Geral da UIAA para aprovação.

Quanto às estatísticas de acidentes, apesar de muitos países registrarem fatos ocorridos em escaladas e montanhismo, não existem registros internacionais. A Comissão de Montanhismo da UIAA está investigando como registrar tais dados, e começou a organizar uma lista internacional. Tal fato será importante para ajudar na identificação dos aspectos mais perigosos da escalada e o montanhismo e em como encará-los no futuro.

Finalmente, quanto à graduação, muitos escaladores já estão cientes das graduações da UIAA para vias de montanha. Estas graduações são comumente usadas como parâmetros de comparação para outros sistemas de graduação, mas estas comparações acabam sendo normalmente diferentes. Isto foi discutido na reunião e diversas mudanças foram sugeridas e aceitas para permitir uma paridade mais precisa, sobretudo em graus mais baixos, e uma expansão para acomodar graus mais elevados, sem alterar os níveis existentes da escala.

(O texto acima é uma tradução livre da reportagem de Phil Wickens, secretário da Comissão de Montanhismo da UIAA)

Clique aqui para ler o texto original, em inglês.

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K2: O QUE VOCÊ NÃO ESTÁ LENDO
Fredrick Wilkinson
Tradução livre de artigo publicado na revista Rock and Ice no dia 12 de agosto de 2008. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor.

O frenesi da mídia acerca da recente tragédia do K2 culminou em um artigo de primeira página no New York Times. Apesar de meio atrapalhado, o artigo esboçou os duros fatos que agora já foram amplamente reportados nas notícias da comunicação de massa. Cerca de 30 pessoas deixaram o campo mais alto antes do amanhecer na sexta-feira, dia 1 de agosto, para o ataque ao cume. Os montanhistas estavam contando com o uso de cordas fixas, colocadas por outro time avançado de escaladores. Atrasos se seguiram de imediato quando perceberam que as cordas fixas não estavam mais colocadas estrategicamente nas seções mais difíceis da escalada; mais cordas precisavam ser instaladas debaixo. Um escalador sérvio faleceu ao cair e o resgate do corpo custou mais uma morte. Enquanto alguns decidiram voltar para o campo avançado, outros 17 escaladores fizeram o cume. A avalanche catastrófica do serac pegou os primeiros escaladores descendo do cume, engolindo vários outros (o número exato reportado variou entre 3 ou 4) para a morte. Cinco a seis outros escaladores pereceram enquanto estavam ociosos acima do corredor do “pescoço da garrafa” na hora da avalanche.Esta se tornou a narrativa aceita, enquanto declarações contraditórias e verdades duvidosas giravam abaixo da superfície. Acima de tudo, e como sempre acontece quando a grande mídia faz reportagens sobre temas do montanhismo, todas as contas falharam ao contextualizar historicamente e corretamente o desastre no K2.

As nacionalidades dos mortos são uma dica para começar desvendar o mistério sobre o que saiu errado. Virtualmente todas as reportagens concordam que dois nepaleses e dois paquistaneses morreram. Isto é um alerta imediato, pois é seguro afirmar que estas vítimas estavam no K2 a negócios e não a lazer – e foram descritos pela mídia como “carregadores de altitude” ou “guias”. Enquanto uma grande força de trabalho de guias locais sherpas é regularmente empregada no Everest e nos picos mais populares do Nepal, tradicionalmente eles têm um papel menor no montanhismo do Karakoram. Por várias razões. As montanhas do Paquistão são mais inclinadas e requerem mais habilidades técnicas, o que significa que elas nunca atraíram um número tão grande de escaladores como em outros picos do Himalaya. Se de um lado, os carregadores locais de montanhas e guias são universalmente reconhecidos por sua força e dureza, eles são também notoriamente inaptos para os aspectos técnicos da escalada, como a construção de ancoragens e fixação de cordas. Portanto, o atraso causado pela fixação imprópria de cordas não deveria ser surpresa; um problema similar aconteceu no desastre de 1996 do Everest, quando guias sherpas falharam em fixar cordas abaixo do cume sul. Exatamente para quem os guias nepaleses e paquistaneses estavam trabalhando, e quanto seus empregadores confiavam neles para suporte no dia de ataque ao cume, são coisas que não foram adequadamente explicadas.

Também se tornou fato estabelecido durante as narrativas sobre o K2 que os escaladores foram “pegos” ou “ficaram presos” acima do pescoço da garrafa após a avalanche que levou suas cordas da montanha. Isto foi reportado por muitas fontes de comunicação de massa, incluindo o New York Times, como também por escritores-escaladores veteranos, incluso o montanhista David Roberts que escreveu em seu blog na National Geographic Adventure: “se o desastre foi engatilhado por escaladores presos acima do pescoço da garrafa após o colapso de um serac que levou suas cordas fixas, eu não posso imaginar uma armadilha mais mortal que esta na história do montanhismo”. Ainda assim, relatos indicam que quatro escaladores conseguiram, com sucesso, negociar o bottleneck após a avalanche: os dutchmen Cas Van de Gevel e Wilco Van Rooijen, o italiano Marco Confortola, e o nepalês Pemba Sherpa. Historicamente está comprovado que um escalador experiente pode negociar o bottleneck sem corda. Como o escalador e jornalista Alison Osius apontou, em 1992, quando as ascenções da aresta dos Abruzzi eram relativamente comuns, não haviam cordas pré-fixadas na escalada final ao cume. Portanto, escaladores subiam e desciam a montanha sem cordas, ou seguiam em times auto-suficientes, usando pequenas quantidades de corda entre eles.

Finalmente, vale considerar as condições meteorológicas durante o evento. Tudo indica que na sexta-feira, 1 de agosto, o sol brilhava no céu azul no Karakoram, sem ventos e limpo. Um dia perfeito assim geralmente impulsiona os escaladores para além dos limites seguros e das regras normais do julgamento “montanhístico” e pode colaborar para explicar por que tantos estavam no cume tão tarde. Após a queda da escuridão, as temperaturas despencaram, e a lua nova proveu pouca luz para guiar os escaladores para baixo. Mudanças nas condições climáticas na manhã seguinte, 2 de agosto, tornou tudo mais problemático. Em uma entrevista publicada no blog da National Geographic Adventure, Wilco van Rooijen descreveu sua descida abaixo do bottleneck: “Pessoas no campo base me viram indo para o lado errado na aresta e ligaram via rádio para as pessoas no campo IV. Tive que me sentar durante um whiteout (quando tudo fica branco no ambiente, comum em alta montanha com neve e gelo, se o escalador é pego em uma nuvem, branca, então o céu é todo branco, o chão é todo branco, não há horizonte, não há referência visual, o perigo é extremo) pois eu não conseguia enxergar nada e sabia que não poderia seguir adiante. Esperei algumas horas. Então vi através das nuvens que eu poderia descer por um glaciar relativamente fácil.”

Simultaneamente – virtualmente na mesma sequência – Wilco sugere que estava perdido no whiteout, enquanto os outros no campo base, 7 mil pés verticais mais baixo, podiam ver ele claramente se movendo para o lado errado. Estes testemunhos não são necessariamente contraditórios; “condições problemáticas” que alternam períodos nublados com buracos de tempo aberto são comuns em montanhas como o K2. Mas claramente não havia uma grande tempestade, como aquela que causou enormes perdas no Everest em 1996 e no K2 em 1986 e 1995. Vale lembrar ainda que o relato de Wilco tem como referência o imenso estresse físico e mental pelo qual passam os sobreviventes de uma descida da montanha. Aqueles que assistiam e reportavam os eventos no K2 de longe, deveriam ter plena consciência de questionar os primeiros fatos relatados por aqueles que viveram uma experiência tão devastadora.

Muitas perguntas continuam sem respostas – mas a presença de inúmeros guias locais contratados, bem como a excessiva confiança em cordas fixas, sugere que os escaladores contemporâneos estão indo ao K2 com idéias fundamentalmente diferentes daqueles que iam há 20 anos atrás. Vai levar algum tempo para vir à tona a compreensão do que aconteceu; ainda agora, sobreviventes tentam sair do Paquistão para voltar para casa. Enquanto isso, com as Olimpíadas em Pequim, e a guerra na Georgia, as notícias sobre o K2 viraram a bola da vez. Enquanto a comunidade escaladora precisa fazer um balanço cuidadoso para entender o que deu errado, eu sigo com a forte sensação de que a grande mídia nunca vai entender.

Fred Wilkinson está atualmente procurando pelas respostas do episódio na montanha. Fred é um escalador competente e em todas as modalidades, com experiência no Himalaya e Patagônia, vive em North Conway, New Hampshire. Ele é também um historiador-escalador por natureza.

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O CORDELETE
Free solos e o caminho da perdição

Tradução livre. Conto de Fitz Cahall publicado na revista Climbing nº 265. Abril, 2008. Parte da matéria especial “Obsession – The Dark Side of Climbing” (Obsessão – O Lado Negro da Escalada), pág. 64.

Tão funcional quanto forte, o nó “oito” é o primeiro e mais importante nó que um escalador aprende – ele o conecta à corda, ao equipamento, e ao parceiro. Entre dois escaladores, um “oito” faz a promessa vital e magnífica, “se você for, eu vou junto”.

Em algum momento perto do meu 22º aniversário, parei de me encordar. Não era um desejo de morte ou uma loucura por adrenalina que me levou às montanhas. Era frustração. Eu já havia solado por dois anos, mas aquelas ascenções sem corda eram o lance do momento. Parceiros se mostraram muito descompromissados – ou chegavam tarde demais, ou não chegavam. Eles tinham desculpas, ou tinham medo. Escalando sozinho, eu podia acelerar um dia de várias cordadas em algumas horas; eu podia mandar esforços de um mês, em um dia. Eliminando os enroscos, eu tornava o sistema exponencialmente mais eficiente. Se eu podia delinear a escalada desta forma, pensei, porquê não toda minha vida? Era uma direção perigosa, uma direção que complementava minhas forças – um código genético trabalhando pela ética e confiança em minha habilidade – e se aproveitava de minha fraqueza – uma vida de timidez.

Eu intercalava sessões de treino no lugar de aulas na Universidade de Washington com trabalhos de meio-período escrevendo; e então, deixando apenas notas ininteligíveis na porta da geladeira descrevendo meu paradeiro para colegas de quarto, eu desaparecia. Eu voltava dois ou três dias depois, fraco e queimado de sol. Meus amigos não-escaladores apelidaram de “surtos”.

Verdade, estava ficando difícil de dizer a diferença. Não que meus projetos de solos estavam se tornando mais arriscados – é que escalar solo havia se tornado a regra. Se eram longos encadenamentos nos picos selvagens de Washington, ou uma simples e exigente cordada que eu havia decorado mentalmente centenas de vezes, os solos tornaram-se rapidamente impetuosos lampejos que absorviam meus pensamentos até que eu finalmente corria para as montanhas. Quando eu chegava, transpirando por ter corrido na trilha, a ansiedade acalmava e meu fôlego estabilizava em um ritmo calmo. Quando começava e enfiava meus dedos inchados em uma fenda, eu nunca estava com medo. Quase sempre parecia que eu estava no lugar certo e na hora certa.

Escalar não era mais sobre se divertir – era sobre realização potencial. Eu estava ficando mais forte, mas minha capacidade de me conectar com qualquer coisa que não fosse meu pequeno mundo estava murchando. Eu tinha insônia. Aquela clareza cortante que eu atingia solando me esquivava da vida cotidiana. Quando os amigos tentavam me endireitar com algum trabalho, eu sentava balançando minha cerveja e deixava a conversa passar como água ao redor de uma fria pedra de rio. Eu esperava encontrar felicidade em cumes, mas ao invés disso, descobri o óbvio – por natureza, topos de montanhas são solitários. Eu me apaixonara por algo que não podia me amar de volta.

Uma noite enquanto separava equipos, puxei um cordelete, ainda molhado de gelo alpino derretido. Minhas mãos trabalharam vários nós até que surgiu o “oito”. Torci o cordelete de volta ao oito e fechei a volta. Tinha em minhas mãos um círculo vazio fechado por um poderoso nó. Joguei o loop sob as vigas, deixando-o balançar até parar no ar sufocante da garagem. Deixei o nó pendurado lá com uma pergunta em aberto: o que eu estava fazendo?

Becca e eu éramos duas pessoas voltadas para direções diferentes, ou pelo menos foi o que dissemos um ao outro na primeira oportunidade. Havia começado a alguns anos como uma paquera de verão. Ela era mais velha, e após graduar, deixou Seattle para procurar neve e uma carreira de ciências. Nenhum de nós lembrava como terminamos nossa relação. Não haviam perdões ou desculpas esfarrapadas. Um dia estávamos juntos, no outro, centenas de quilômetros nos separavam.
Foi assim por alguns anos. Becca deixou Colorado, conseguiu um trabalho no Alaska, e foi morar com um namorado em Oregon. Enquanto isso eu passei seis meses na Australia, me graduei e mudei para o Arizona.

Aquele outono, Becca ligou. “Eu saí do Oregon”, ela disse. “Posso ir te ver?” Eu gaguejei minha aprovação. Três dias depois, Becca chegou com o ar de inverno beijando seus calcanhares e perfumada como a promessa de neve. Uma semana depois, ela pediu para ficar.

Com alguma cola e compensados de madeira nós tranformamos uma picape Toyota 1993 em uma casa móvel com teto extremamente baixo. Juntos, nós vagabundeamos por nossos primeiros big-walls em Zion. Derrubamos camalots, lutamos com haul-bags, e rasgamos cordas. Durante a noite, sentamos de pernas cruzadas em platôs na parede e mandamos nossas massas semi-prontas com cerveja quente até as estrelas aparecerem e a conversa e as risadas chegarem a conclusões tranquilas. Nosso antigo e pendurado portaledge chacoalhava tão suavemente na brisa do deserto quanto uma canoa à deriva em um lago invisível.

O campo de trabalho de Becca acabava levando-a para longe durante semanas de vez em quando. Deixado sozinho novamente, eu caía naquela energia maníaca. Eu corria para croquis, anotações e mapas. Pensava no frio, nos termos científicos de eficiência e probabilidade. Então eu empacotava uma mochila com água e comida, e me enfiava em cadeias nevadas. Mentalmente nutrido por minha relação feliz com Becca, eu inventava metas que não passavam de delírios – circuitos de 5.11 na falésia local, ligações entre vias clássicas alpinas moderadas e meu primeiro solo de 5.12 – para mim, gigantescos feitos que eu instintivamente omitia em nossas conversas noturas por telefone.

Um ano depois Becca apareceu de novo em minha porta, nos vimos de volta à estrada. Becca e uma amiga apontaram sua direção 300 pés acima em uma via no Lover´s Leap, enquanto eu me sentei na floresta abaixo, escrevendo. Eu anotava idéias desconexas até que minha mente secava. Tinha um par de sapatilhas e tempo livre. Acima de mim, Becca chegava ao topo da falésia. Estralei meus dedos e enfiei os pés nas apertadas sapatas. Passei uma fina camada de magnésio nas mãos e comecei subir. Sem o peso de uma corda, eu fluí, afundando meus dedos em volta de curvas de granito e agarrando bordas deformadas até que o ângulo suavizou e eu pisei solo seguro do topo.

Segui a trilha abaixo até que alcancei as mulheres, descendo. Quando Becca se virou para me ver, nós dois paramos. Sorri nervosamente. Ela virou e continuou andando. Debaixo de sua fina camiseta, eu pude ver seus ombros magros levantar e tremer. Quando coloquei uma mão em seu ombro, ela arrancou-a e estapeou minha mão para longe. Fiquei ali parado mudo, com uma marca vermelha se formando em meu punho esquerdo. Juntei meus braços em volta dela, cruzei meus dedos até que eles se apertaram formando um nó.

“Nunca mais faça isso de novo”, ela disse, sua voz tremendo de medo. “Você está escalando por nós dois lá em cima”.

Eu congelei. Eu tinha evitado aquela conexão ao máximo. Toda vez que um escalador ata um nó, é a reiteração de uma promessa: vou te segurar se você cair. Eu havia desatado de nossa existência compartilhada. Por mais que eu não quisesse acreditar nisso, a felicidade vinha com seu próprio peso – responsabilidade. Estava claro que eu tinha que fazer uma escolha.

Nos dias de hoje nós existimos na paisagem urbana de Seattle e seguimos os caminhos em nossas carreiras. Os finais de semana são pequenas agarras que nos mantém conectados às montanhas. Depois de horas grudado na tela do computador, ordenando palavras má-intencionadas em sentenças, começo a ter recaídas. Penso em escalar solo, como um adúltero consumido por uma luxúria que atrai.

Então eu me lembro do rosto de Becca, magoado e molhado de lágrimas. Lembro minha promessa não dita – você vai, eu vou. Minha mente se acalma, da mesma forma que se acalmava quando eu sumia entre glaciares e rochas. Eu sorrio, penso em todas as vias compartilhadas, e nas aventuras que ainda estão por vir. Eu posso fechar meus olhos e sentir o cheiro da sálvia no ar do deserto, sentir o portaledge mexendo com o vai-e-vem da respiração da Becca. Eu sinto a força de nós invisíveis que nos mantém ligados.

Fitz Cahall vive em Seattle, onde produz o site “Dirtbag Diaries”. Ele e Becca acabam de celebrar seu primeiro aniversário de casamento.

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Escalada Tradicional – um pouco de história

Lendo uma revista Rock and Ice do ano 2001 que estava perdida nas prateleiras de casa, encontrei uma reportagem (pág. 50 – The 1972 Chouinard Equipment Catalog – Rock&Ice nº107) muito interessante sobre os primórdios da escadala ‘Trad’. No final dos anos 50 e início dos anos 60 a escalada de grandes paredes passava por uma certa ‘febre’, principalmente no vale do Yosemite.

Porém este crescimento de praticantes e frequentadores à época trazia consigo um impacto nas rochas e paredes mais escaladas, devido ao grande número de pitons e grampos utilizados para as conquistas. Enquanto novas vias surgiam, um pequeno grupo de montanhistas e escaladores já enxergava com novos olhos aquele tipo de aproximação vertical danosa.

Seus espíritos carregavam um conceito que na verdade refletia apenas algo que é inerente à maioria dos humanos, mas que se perde e fica esquecido, que é a identificação com a natureza e uma aproximação harmoniosa com o meio-ambiente. Este conceito foi chamado de ‘clean climbing’, ou ‘escalada limpa’.

Muitas fendas eram ‘violentadas’ por excessos de peças metálicas, os pitons, durante conquistas ou repetições de vias e isso gerava uma degradação irrecuperável. Figuras emblemáticas como Yvon Chouinard, Royal Robbins, Tom Frost, e Doug Robinson, tiveram papel fundamental não só na disseminação da escalada limpa, e ‘trad’, como no desenvolvimento e crescimento da atividade e do esporte como um todo.

“Durante os anos 60 o tráfego de escalada no Valley havia crescido enormemente. O crescente número de pitons de aço sendo cravados no granito estava claramente danificando a rocha. Algumas vias haviam sido fechadas pelo Park Service devido à desfiguração da rocha, mas as marteladas continuavam ecoando pelo vale.” – ilustra a reportagem da R&I. E continua: “Mesmo com os danos se tornando mais difíceis de ignorar, pitons e bolts eram as únicas proteções em que os escaladores confiavam. E mesmo que alguém quisesse tentar algo em um estilo novo, nenhuma alternativa estava disponível na América. Ironicamente, o mais persuasivo dos argumentos contra proteções fixas veio de um catálogo do melhor fabricante de pitons do país. Em 1972, o Catálogo de Equipamentos Chouinard trazia um artigo escrito por Doug Robinson chamado ‘The Whole Natural Art of Protection’ (difícil traduzir para o português sem perder a beleza do título, mas ficando algo como A Grande Arte Natural das Proteções). O ensaio de Robinson trazia toda uma nova visão sobre a aproximação das paredes e vias de escalada, baseada em nuts removíveis.”

Para quem não sabe, Yvon Chouinard, à época, dono da Chouinard Equipments, é o ‘pai’ da Black Diamond Equipments. A BD é hoje reconhecidamente uma das melhores e mais famosas marcas da escalada e do mundo vertical. Por isso seu símbolo lembra, também, uma letra “C”, de Chouinard.

Outro dado muito interessante e curioso sobre o surgimento dos equipamentos “móveis” como chamamos hoje, é que os nuts, os hexentrics, e os stoppers derivaram de peças simples, como parafusos e porcas. Os hexentrics têm sua origem em grandes porcas de aço usadas em fabricação de aviões. O próprio Chouinard, que já conhecera peças alemãs, e estava interessado em produzir as peças comercialmente, foi até um pátio da Lockheed, fabricante de aviões, e comprou algumas porcas grandes de alumínio para usar em fendas maiores, como relata a reportagem.

Os caras estavam testando estas novas peças e técnicas, escalando, e não apenas pensando ou imaginando. O resultado, foi que, quando o catálogo de equipamentos Chouinard de 1972 foi lançado, e após o próprio Chouinard escalar a The Nose, no El Capitan, inteira no estilo ‘limpo’, e no ano de 1973, Hennek e Robinson escalarem a face Noroeste no mesmo estilo, e que era a primeira via grau VI feita daquela maneira, um novo universo nascia no mundo da escalada tradicional de grandes paredes.

Nas palavras de Robinson: “A tecnologia é imposta no terreno mas a técnica significa se ajustar à paisagem. Elas trabalham em direções opostas, uma forçando a passagem, enquanto a outra a descobre. A intenção em desenvolver a técnica está em se adequar à mais improvável paisagem através do mais alto grau de habilidade e coragem rumo ao desconhecido, com o mínimo uso de equipamentos”.

Photos | BD Equipments
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Eiger: novo recorde de velocidade na face norte

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O escalador suíço Ueli Steck é o feliz “proprietário” do seguinte recorde: mandou a parede norte do Eiger em apenas 2 horas 47 minutos e 33 segundos pela clássica via Heckmair, aberta em 1938.

Na época, os melhores do mundo escalavam a mesma parede em 3 dias ou mais.

Ueli Steck credita seu sucesso à receita do alpinismo extremo – escalar rápido e leve. No caso dele, o quesito peso é levado realmente ao extremo, já que ele escalou a via que tem mais de 1800 metros de comprimento vertical e graduada como ED2 (que numa tradução seria algo como “Extremamente Difícil 2”) com apenas 2 bloqueadores, 2 mosquetões, uma costura, um parafuso de gelo, e 30 metros de corda de 7mm (!!).

Para economizar ainda mais no peso, Steck emagreceu 5kg, em comparação com sua última escalada rápida na mesma parede, e que também era um recorde de velocidade.

Quantos aos equipamentos que levou, Steck apenas disse que usou-os para “costurar ocasionalmente em sessões cruciais”. O que significa que o suíço solou a maior parte da via.

No mês que vem, Ueli pretende ir aos Himalayas e tentar a face sul do Annapurna (umas das 14 oito mil) em estilo alpino, sem cordas fixas e sem oxigênio suplementar. É o alpinismo moderno em plena evolução, diante dos nossos olhos. Para quem quiser conferir a matéria completa, em inglês, no site da revista Rock and Ice.
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CERRO TORRE – SÉRIE ÉPICOS – PARTE II
Guerreiro Apocalíptico
Bill Denz sozinho na Via do Compressor, 1979-1981

Em 1959, o escalador italiano Cesare Maestri dizia ter feito a primeira ascensão do Cerro Torre em um brilhante ataque em dupla, pelas faces leste e norte da montanha. Porém, o feito foi marcado pela tragédia: uma queda de gelo matou seu parceiro, o austríaco Toni Egger. Escaladores do mundo todo imediatamente “fizeram barulho” e consideraram a escalada uma das maiores de todos os tempos. Entretanto, na década seguinte, outros, encabeçados por Ken Wilson e a revista Mountain, começaram a colocar a escalada de Maestri em dúvida.

Com o orgulho ferido, Maestri decidiu escalar a montanha novamente num magistral ataque alpino para silenciar sua legião de críticos. Assim, em 1970, ele escalou a parabólica cresta sudeste do Cerro Torre. Mas visto que a escalada de 1959, se verdadeira, seria uma realização alpina imortal, desta vez a equipe de 10 homens de Maestri, com cordas fixas por toda montanha, içou um compressor movido a gás de 80kg (150 pounds!) montanha acima, e usou este compressor para fixar 350 bolts (proteções fixas, “parafusos”) em seções de parede “lisa” (e outras nem tão lisas). Em um ataque final, Maestri inutilizou (esmagou) os bolts dos últimos 70 pés (aprox. 25m) para provar que sua tática mecanizada era necessária. O artigo seguinte de Ken Wilson, na Mountain Magazine, intitulava-se: “Cerro Torre, uma montanha desrespeitada”, embora em justiça a Maestri, a Via do Compressor possua muitas belíssimas escaladas naturais com características fantásticas.

Jim Bridwell e Steve Brewer fizeram a segunda ascensão da Via do Compressor em estilo alpino em 1978. Na última cordada, Bridwell passou habilidosamente pelos bolts esmagados de Maestri.

O alpinista neozelandês Bill Denz tentou a Torre Egger, sem sucesso, em meados de 1970. Denz era um determinado e experiente alpinista, com conhecimentos de neve e gelo adquiridos nos Alpes do Sul da Nova Zelândia. Ele imediatamente apaixonou-se pela Patagônia, embora suas habilidades em big wall não acompanhassem as exigências da cadeia de montanhas. Denz fez uma peregrinação para Yosemite para corrigir suas deficiências no granito. No Valley (Yosemite) ele encontrou Charlie Porter, o maior escalador de big wall da época. (Algumas escaladas de Porter: primeiras ascensões – da Excalibur, Shield, Mescalito, e Zodiac, todas no El Capitan; a Face Oeste do Middle Triple Peak nas Agulhas do Kichatna no Alaska; e a primeira via cotada como grau VII, feita solo, no Monte Asgard da ilha Baffin). Sob a tutela de Porter, Denz tornou-se um forte e competente homem de parede.

Eles combinaram de se encontrar na Patagônia em 1979 para tentar uma nova via no Cerro Torre. Mas Porter começou sua aventura no sul com uma expedição pelo arquipélago patagônico, ficou terrivelmente atrasado pelo mal tempo e pelas autoridades chilenas, e nunca chegou ao encontro marcado.

Denz decidiu tentar o Cerro Torre sozinho. “Até agora tentei solar sete vezes o Cerro Torre (pela Via do Compressor)”, escreveu Denz em uma carta em casa. “A última foi a mais próxima do sucesso”. Nesta tentativa, Denz passou dois dias enrascado cavando uma cova de gelo na Torre de Gelo (um pilar de granito repleto de gelo que é levemente descolado do muro principal 850m acima do glaciar) debaixo de uma tempestade, e então passou cinco dias dentro da cova.

Por duas vezes ele escalou chegando a aproximadamente 80m do topo (250 pés), tempestades frustraram as duas tentativas. Não satisfeito, Denz retornou ao Cerro Torre para a temporada 1980-81, desta vez com a intenção premeditada de solar. Ele selecionou seu material para o mínimo necessário e deixou o campo-base com 4 dias de comida, rastejando por neve fofa por 16 horas para alcançar a caverna de gelo natural no Col da Paciência. O clima ficou pesado e Denz passou um dia esperando. O barômetro(*) subiu durante a noite.

Denz escalou até a Torre de Gelo e achou o lugar onde havia cavado sua cova um ano antes. No quarto dia ele escalou até o compressor de Maestri, que continua suspenso a apenas 50 metros do cume. Nuvens, rocha coberta por fina camada de gelo, e um vento de furacão explodindo acima do topo do Cerro Torre fizeram Denz voltar para sua cova na Torre de Gelo, mas pelo amanhecer do dia seguinte, as nuvens haviam sumido. Denz saiu de seu bivaque para o topo da Torre de Gelo, justo na base da parede final.

A parede final do Cerro Torre, notória pelos bolts colocados por Maestri a cada metro nos últimos 180m de rocha “lisa” não tem um começo fácil. Denz começara seu sexto dia com 20 metros de uma tensa escalada livre. Um novo sopro de tempestade passou justamente quando ele alcançava o primeiro bolt. Denz armou seus estribos com pitons clipados nos degraus debaixo, e encordou-se para uma aposta “seja o que Deus quiser” para o cume, e escalou a escada de bolts.

O frio perfurou sua alma. Facas de gelo cresciam na rocha. “Cheguei no compressor e o tempo realmente começou a ficar ruim”, disse Denz em anotações de 1980. O quinto bolt acima do compressor era o último dos bolts de Maestri. Denz não podia encontrar os rebites ou pitons de Bridwell na rocha coberta de gelo fino e cinza. Ele avistou algumas fendas que surgiam à direita e balançou. Ele estava apoiando em uma fina camada de gelo, tentando encaixar uma peça nas fendas, quando a camada entrou em colapso. Denz caiu pela face. Ele voou direto e parou num stopper numa fenda, alcançando um pequeno canto.

O vento era insano. Seu equipamento e cordas estavam cheios de gelo, e ele mesmo congelado. Ele tinha três friends. Um ele deixou cair, e os outros dois, entalados numa fenda. O vento chicoteou um de seus estribos, incluindo o pesado jogo de pitons preso no último degrau, que o acertou com força atrás da orelha.

A fenda virava para baixo até uma emenda. Denz achou que poderia se conectar a uma minúscula fenda com gelo acima. Sua peça posicionada mais alta era um RP número 1. Ele subiu no último degrau do estribo para alcançar a fenda mais próxima. Encaixou um piolet, em seguida o outro dentro da fenda e fez um movimento se esticando para cima sob a tempestade. Toda a placa desmanchou. Denz voou, arrancando seu RP, e foi salvo pelo stopper, sua última costura deixada para trás. “Eu tinha que desistir ali mesmo”, disse Denz. “Eu simplesmente não conseguia”.

Denz lutou de volta até o compressor e começou rapelar. Suas cordas enroscavam o tempo todo. Sem segurança, ele teve de repetir a maioria das três cordadas finais para desfazer os enroscos. Enquanto desescalava em terreno mais fácil, próximo da base, uma pequena avalanche fez Denz escorregar. Ele falhou no auto-salvamento (técnica de manuseio do piolet em gelo para parar a queda). “Rolei como uma bola de neve com minhas mãos em volta da cabeça e rezei pelo melhor”, anotou ele em uma de suas cartas em casa. Ele deslizou 700 pés (aprox. 230m), voou por sobre a bergschrund de 10 metros de largura (sem tradução para o português, seria a fenda final que os glaciares de gelo formam no contato com a parede rochosa – como uma greta), e “terminou numa pilha de neve na base da bacia gelada abaixo”. Destroçado, Denz precisou de dois dias para percorrer as 8 milhas até o campo base (normalmente a viagem leva seis horas). Dois anos depois, a via do Compressor recebia sua terceira ascensão.

Em 1983, Bill Denz morreu em uma avalanche enquanto tentava o Pilar Oeste do Makalu. Ele tinha 32 anos. Esta história foi feita com entrevistas, trechos de suas cartas, e slides publicados no jornal New Zealand Alpine Journal de 1981, 1983 e 1984.

(*) Barômetro é um medidor de pressão. Se o barômetro “sobe” significa que a pressão está subindo no local, e pressão subindo significa previsão de tempo bom. O contrário idem. Baixando a unidade de medição do barômetro, pressão em queda, grandes chances de tempo ruim.

Tradução livre de texto extraído da Revista Climbing Online, série Épicos sobre o Cerro Torre.
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Escalada em dia

Bom, primeiramente desculpas aos nossos leitores pela falta de atualização do Wilo Montanhas. É que não tem sido fácil dedicar-me como gostaria ao blog. A “vidinha de escravo” não permite. Mas enfim, vamos ao que interessa, as montanhas e suas vias, obras de arte da natureza que tanto maltratamos.

Esportiva
Os espanhóis e espanholas, como já dito em post anterior, continuam dominando o mundial que acontece por lá, em Avilés, região das Astúrias. O 9º Campeonato Mundial de Avilés bateu recorde de países inscritos. São coreanos, japoneses, austríacos, franceses, poloneses, norte-americanos, espanhóis, e claro, brasileiros! Sim, estamos bem representados pelo pessoal da “escola CP”, Janine Cardoso, André “Bele”, Cesinha, e Felipinho. Clique aqui para saber mais sobre o desempenho dos brazucas. Vale ressaltar que são 185 inscritos no mundial, 68 mulheres e 87 homens.

Mas, a “mandação” fica por conta dos “tios” hispânicos. “Ramonet”, Patxi Usobiaga, Pablo Barbero, Eric López, e a forte Irati Anda. Para saber mais, acesse o site espanhol Desnivel clicando aqui.

Rocha
A edição de setembro da revista Climbing é daquelas de tirar o fôlego. É o que eles chamam de “The Epics Issue”, ou “Edição dos Épicos”. Todo ano eles lançam uma edição dessas da revista, só com as “roubadas” mais sinistras, histórias reais de sobrevivência nas montanhas, situações extremas contadas por quem conseguiu sair vivo delas. Destaque para a matéria de capa com o falecido Michael Reardon, norte-americano descendente de irlandeses que só solava(*) vias insanas e muitas à vista (!), e que quando percebia que não ia conseguir completar sua empreitada, desescalava (!!!). Apesar de escalar de forma aparentemente tão “irresponsável”, Reardon era um “freemind”. Não acreditava em regras para o mundo vertical, era cheio de alegria e vida, e contagiava a todos a seu redor com sua interminável energia para escalar e inesgotável bom humor. Morreu engolido por uma onda enquanto se preparava para solar uma parede à beira do mar na Irlanda. Confira aqui.

Grandes Paredes
Um time russo “muito forte” segundo a revista Alpinist acaba de realizar a primeira ascensão da face leste-sudeste do Kizil Asker, pico de 5.842m (foto acima) no Kokshaal-too, região parte da cadeia Tien Shan, fronteira da China e o Quirguistão.

A ascensão feita por um time de 5 russos, contou com a participação do lendário Alexander Odintsov, que para quem não conhece, segue seu projeto de completar primeiras ascensões nos maiores “big Walls” do mundo. Um dos feitos mais impressionantes de Odintsov foi mandar em 2004, junto com Mikhail Mikhailov e Alexander Ruchkin, a parede norte do Jannu (7710m) no Himalaya nepalês em uma expedição que contou com o bivaque em portaledge mais alto já registrado, passando várias noites a 7400m de altitude. Mais, em inglês, clicando aqui.

(*)Solar = Escalar em Solo = Escalar em solitário = Na escalada esportiva significa que o escalador ou escaladora vai sem usar cordas, o que na maioria das vezes significa que as quedas serão fatais, o que também significa que se o escalador decide “solar”, ele não tem o “direito” de cair em hipótese alguma. Existe o sólo encordado, que o escalador sobe sozinho, porém assegurado por corda, o que lhe permite cair em segurança e salvar sua vida. Apesar de controverso, o ato de “solar” é encarado como escolha individual e livre daquele que pretende fazer tal coisa. Michael Reardon resumiu: “Solar é um desejo de vida, e não um desejo de morte”.

Foto | http://www.alpinist.com
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Climbing do mês de agosto

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A revista norte-americana Climbing tem apresentado uma postura interessante do ponto de vista ambiental. Alguns poderiam dizer que Matt Samet, o editor e escalador, estaria apenas seguindo um “modismo”, o de falar sobre o Meio Ambiente. Mas como também muitos dizem por aí, “convença pelas atitudes e não falando” a revista traz um editorial que fala sobre o aquecimento global bastante sensato.

Samet cita o Painel Intergovernamental da ONU (IPCC), dá bons e simples exemplos de coisas que fazemos todos os dias, como andar de carro queimando pretóleo, e que causam impactos consideráveis. Com comentários inteligentes e algumas contas sobre consumo de combustível x quantidades de carbono emitidas no ar que não vêm ao caso, é no fim do editorial que surge uma informação talvez das mais relevantes: “De acordo com dados da Earthday Network existem aproximadamente 4.5 acres de terra produtiva para cada pessoa viver, no planeta inteiro. O modo de vida de um típico (norte) americano hoje demanda 24 acres de terra. Se todos no planeta vivessem como o americano médio, seriam necessários 5.3 planetas.” E tudo isso dito por um norte-americano, o que nos mostra que nem todos por lá são tão idiotas quanto seu presidente.

A Climbing é impressa em papel 100% reciclado, e logo no sumário, indica o quadro: “A Climbing salva, imprimindo esta edição em papel 100% reciclado, 227 árvores crescidas, 16 mil galões de água…”, entre outras coisas.

Mas vamos às notícias. Pra quem curte Esportiva, vale ficar esperto com uma nova geração austríaca. A Espanha que se cuide, que até hoje, ainda considero no auge da escalada mundial esportiva, com Ramonet, Dani Andrada, Iker Pou, e a basca Josune Bereziartu (primeira mulher a mandar 5.14b), só pra citar alguns “tios”. Mas, o jovem austríaco David “Fuzzy” Lama, já conquistou nada menos que 4 (!) Copas do Mundo de escalada esportiva com apenas 16 anos.

Entre cadenas e mandações absurdas, Fuzzy conquistou um Mundial de boulder depois de quase morrer em um acidente numa via ferrata, ficando semanas sem treinar. Detalhe: era seu primeiro campeonato Mundial de boulder. A turma austríaca que desponta na sessão Hot Flashes da revista ainda é formada por Kilian “Fish” Fischhuber (23), a bela Barbara “Babsi” Bacher (24), e Angela Eiter (21), todos atletas profissionais.

Pessoalmente me serviu de incentivo a matéria anterior com Steve McClure, que acaba de mandar nada menos que um 9a+ (praticamente o maior grau esportivo existente). A via, na Inglaterra, chamada Overshadowed (9a+ / 5.15a), tem, depois de um crux de 5.14c / V12 “forçando os ombros”, um descanso no melhor estilo “morcego”, ou “bat hang” como diz a revista. McClure tentou a via nada menos que 40 vezes durante três anos, treinando especificamente para o “descanso” do bat hang. Se você ainda não entendeu o que é o bat hang, traduzindo ao pé-da-letra significa “pendurar como morcego”. O escalador fica somente com os dois pés, de cabeça para baixo, sem as mãos, literalmente segurando com as pontas dos pés em uma saliência da rocha. McCLure disse que foi “de longe, o meu first ascent * mais difícil”. Mas como eu ia dizendo, o que me serviu de incentivo não foi a idéia de pendurar como um morcego, e sim o fato de o cara ter 36 anos – dá pra escalar muito ainda!

Outro fato que está se tornando bastante comum, é a cadena de vias abertas e historicamente de escalada Artificial, em livre. Vias de A0, A1, até A2, já estão se tornando “trads” de 5.12s e 5.13s. Isso reflete uma evolução fantástica na escalada moderna, parte da evolução dos equipamentos, do condicionamento físico dos atletas, e de superação do fator psicológico. Bom, a má notícia é que todo este conteúdo não está integralmente disponível no site da Climbing, e sim apenas na versão impressa da revista, que dificilmente chega ao país, mas a boa é que o último papel de parede deles, está sensacional. Confira e boas escaladas e leituras. Não deixe de estudar, fazer cursos e se informar sobre o montanhismo com entidades que valorizam esta atividade tão apaixonante e ao mesmo tempo perigosa. Conhecimento é segurança.

(*) Primeira ascensão

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Escalada Esportiva: 9º grau em ascensão

A pedidos aí vai um pouco de Escalada Esportiva. Talvez uma das maiores novidades no mundo da esportiva seja o 9º grau francês. Nos EUA, equivale ao 5.14d / 5.15, e no Brasil, pode variar em torno de 11c/ 12a / 12b. O 9º é um grau relativamente recente no mundo da escalada e representa uma evolução do esporte. Há apenas 10 anos atrás praticamente ninguém imaginava ou tinha ouvido falar em 9º grau francês.

Quando surgiram as primeiras vias cujas cotações ultrapassavam o 8º grau, as controvérsias dominavam as discussões. Escaladores mais fortes decotavam as vias, supostas 9a ou 9a+, para 8c+, 8c, até para 8b+. Aliás decotar é algo bastante comum no mundo da esportiva, pois são centenas, até milhares de vias dos mais variados graus no mundo todo e sempre há uma forte dose de subjetividade na hora de cotar o grau. Esta subjetividade obviamente está ligada às capacidades do escalador. A experiência é a melhor maneira de se cotar uma via com fidelidade.

Um escalador que já tenha encadenado algumas dezenas de vias de 8ºs (vários 8as, 8bs, 8b+s, 8cs, 8c+s, etc.) terá mais referências para dizer se uma nova via, supostamente cotada como 9º, é realmente daquele grau. Por outro lado, por ser um grau recente, faltam referências de nonos graus, assim como também é bastante reduzido o número de escaladores capazes de encadenar tal grau de dificuldade. Caras experientes e extremamente fortes como Alex Huber, que já solou oitavo grau francês (acima do décimo grau brasileiro), não encadena um 9º grau a qualquer hora que bem entender. O próprio japonês Hirayama, que já mandou 10º grau à vista (!) – cotação brasileira – até o momento não parece ter encadenado nenhum 12a.

Enfim, o que é mais interessante em último caso, é a evolução esportiva e física desses atletas, sobretudo os mais jovens, e a ampliação das possibilidades da escalada esportiva, e do boulder, para a atividade no mundo todo. Até quando será possível subir o grau de dificuldade? Só resta esperar para descobrir, e treinar, muito.

Veja um vídeo do escalador norte-americano Steve McClure escalando Mutation, um 9a / 5.14d em Raven Tor, clicando aqui.

Foto | Psyche
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Alpes: temporada perigosa

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Esta temporada de verão, segundo o jornal Le Figaro do dia 13/8, está prestes a entrar para o time das mais perigosas registradas pelos franceses. Na capa, o título: Mar e Montanha: o verão mortal.

A linha fina da matéria completa: O número de vítimas é particularmente elevado este ano. O princípio da gratuidade dos salvamentos está no centro do debate.

Segundo a matéria do jornal, 22 pessoas perderam a vida nos Alpes desde o início das férias em 1º de julho. Já na revista Alpinist são 30 mortos (pois incluem os acidentes ocorridos nos Alpes Suíços). Para o Le Figaro, o tema central em debate é a questão dos custos dos resgates em montanha em comparação com os resgates em águas marítimas. Segundo uma lei de 2002, do governo francês, “nas montanhas, a comunidade local (no caso o poder público local, município, prefeitura, etc.), pode requerer parte das despesas com operações de resgate consecutivas na ajuda aos praticantes de todos os esportes, atividades ou lazer”, em montanha.

Fato é que o verão 2007 nos Alpes está prestes a ser um recorde sinistro, o de maior número de mortes nos últimos 50 anos. As razões são, infelizmente, tão graves quanto os acidentes. Em parte, o Alpinist conta que segundo os socorristas, há falta de preparo por parte dos escaladores, como no caso dos 4 mortos no Mont Blanc, que foram pegos de surpresa pelo mal tempo e não estavam equipados corretamente para o frio, e também não tentaram cavar uma gruta no gelo (técnica básica de sobrevivência explicada em qualquer livro de alpinismo que se preze).

Outro fator preocupante, é o da mudança climática, que está tornando a meteorologia de montanha cada vez mais instável a cada ano, segundo a revista. Matéria em inglês na Alpinist, clique aqui.

Foto | http://www.alpinist.com

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O Fim do Everest

Matéria publicada esta semana no portal espanhol Desnivel nos traz uma triste perspectiva para a montanha mais alta do mundo. O governo chinês está “presenteando” a região da montanha com uma estrada asfaltada (e tem gente que chama isso de progresso) avaliada em alguns milhões de dólares. Agora, se não bastasse o “turismo” que assola a montanha a cada temporada (na última nada menos que 520 pessoas pisaram na montanha), o governo chinês resolveu investir no turismo da pior maneira – visando o lucro única e exclusivamente.

Será que espaços como o Everest não deveriam ser considerados reservas, áreas de proteção, ou coisa parecida? Ou vale a pena investir no turismo a ponto de entulhar a montanha de lixo e dejetos humanos (já que a montanha não tem banheiro), entre outras agressões ao ambiente local?

Mais que a estrada, o caso mais grave está por vir. Os conscientes investidores querem construir um hotel no campo base da montanha. Não é novidade existir um hotel em campo base de montanhas altas. O Aconcágua, maior montanha da América do Sul, possui um hotel em seu CB, mas os guarda-parques argentinos controlam com certa rigidez o número de entradas na área, e por temporada há um limite de pessoas que podem escalar a montanha. Não é o que parece acontecer no Everest (o alto custo em milhares de dólares para se obter os passes cobrados para escalar a montanha já podem ser considerados um forte controle do número de pessoas, porém, se a médio prazo o objetivo do governo chinês for o lucro, talvez baixar o preço para aumentar o movimento no local não seja idéia totalmente descartada).

Quem sabe num futuro próximo então, teremos um teleférico pago para levar todos sentados em cadeirinhas até o topo? Talvez ainda escavar alguns túneis e fazer um tour pelos interiores da montanha, dinamitar algumas partes para construir estacionamentos para carros e assim por diante. Ah claro, e porque não, construir o Shopping Everest, com inúmeros souvenires para os turistas gastarem muito dinheiro, com um restaurante panorâmico na parede da montanha, enfim toda uma “boa” estrutura com muito conforto, luxo e lazer. E dane-se a montanha.

Foto | Col. Juanito Oiarzabal – http://www.desnivel.es
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Rocha e Gelo de cara nova e leituras

Finalmente os caras da revista norte-americana Rock and Ice acordaram para seu site. A revista sempre foi um show, concorrente direta da Climbing, porém o site dos caras ficou anos “parado”. Reformulado e com seções equivalentes às da revista impressa, o site traz áreas interessantes como a de Acidentes, com relatos e casos, algo muito importante para quem se interessa pela segurança, que deve ser sempre o principal pensamento na cabeça de todo escalador e escaladora conscientes.

Atividade que não tem nada de “radical” como se vende por aí, ou como normalmente aparece na mídia, que desinforma ao rotular uma atividade humana milenar como algo cheio de “adrenalina”, o montanhismo acontece tanto na prática quanto nas leituras e estudos. A Rock and Ice, apesar de às vezes soar “local” demais por falar apenas deles mesmos (norte-americanos) na maioria das matérias, pode ser inserida no universo de boas leituras para quem quer ir além de apenas aventurar-se com adrenalina ou comprar algum “pacote radical”.

Aliás falando em leitura, outro livro que pode ser considerado a “bíblia” do montanhista, é o Mountaineering: the freedom of the hills. Não é um livro fácil de se ler, pois é bastante técnico, com ensinamentos sobre materiais, cordas, a maioria dos equipamentos existentes, nós, calçados, ambientes, noções básicas de resgates diversos e etc.

Para quem prefere leitura para distrair sobre o tema, além da infinidade de livros narrativos da editora espanhola Desnivel ou dos outros inúmeros da americana The Mountaineers Books, existem também os publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras, como os do autor John Krakauer – Sobre Homens e Montanhas e No Ar Rarefeito – ou ainda o Fantasmas do Everest, entre outros.

Este último é uma narrativa sobre uma expedição de pesquisa para encontrar os corpos desaparecidos dos supostos primeiros homens a pisar no cume da montanha mais alta do planeta, George Mallory e Andrew Irvine, mortos na montanha em 1924. Não chega a ser emocionante mas para quem quer saber muito mais sobre o Everest vale a pena, sobretudo pelo caráter histórico. Aliás esta é a melhor parte, saber que em 1924, usando peles de animais, roupas e equipamentos de longe adequados para tal façanha, homens escalaram o Everest chegando acima dos 8 mil metros de altitude.

No Brasil, ainda para ler, o jornal Mountain Voices (leia entrevista na nossa página de entrevistas com Eliseu Frechou, idealizador do jornal) preenche boa lacuna em se tratando de montanhismo com matérias aprofundadas sobre este universo. No Chile, uma revista que nasceu em 2004, a Escalando, está muito bem impressa, com excelente visual, mas infelizmente ainda não entrou no nosso país (link em nossa primeira página).

Enfim, para quem quer e gosta de aprender sobre montanhismo, basta procurar. O que não dá é para se manter na superficialidade do “uhuu”, levar “altas vacas adrenantes”, mas ir embora para casa sem saber direito porque gosta tanto de escalar. Leia e descubra. Nossos ancestrais já subiam montanhas andinas para suas preces e oferendas, povos indígenas já estiveram acima dos 6 mil metros antes de existirmos, então há algo mais no montanhismo do que apenas rótulos “adventure”. Aliás sempre me pergunto que diabos aqueles carros “adventure” estão fazendo em cima de montanhas nas propagandas, por favor tirem eles de lá.

Imagem | http://www.rockandice.com
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Leitura: Alpinismo Extremo

Uma face oculta da escalada e do montanhismo para muitas pessoas é a leitura e o estudo que estas atividades demandam e que, infelizmente, poucas pessoas e veículos da mídia que se interessam esporadicamente pelo tema, têm consciência.

Muitos dos melhores e mais experientes montanhistas do mundo todo são também escritores de bons livros, guias, artigos e reportagens sobre suas aventuras, suas relações nos ambientes naturais das montanhas e com parceiros e parceiras de escaladas.

Existe uma idéia generalizada pelos leigos, de que quem sai para escalar grandes paredes durante alguns dias não passa de um desmiolado, ou um viciado em adrenalina alienado e inconsequente. Engano. É verdade que existem muitos “praticantes” de escalada que se mantém na superficialidade. Vão para a loja de equipamentos, gastam, compram, vão para as rochas, escalam, gritam, fumam cigarros e deixam suas bitucas por lá, e vão embora se imaginando o “Vin Diesel”.

Estes não duram. Outros, apaixonam-se pela rocha, pelas montanhas, pela atenção e a tensão exigidas pela natureza delas. Esta paixão, pode ser correspondida não só na atividade em si, mas também na leitura de livros, revistas, e guias muito interessantes, ricos em informações que salvam vidas, evitam acidentes e enriquecem o montanhismo.

Para quem quer saber tudo, ou quase, sobre Alpinismo Extremo, uma excelente dica é o livro do escalador-insano norte-americano Mark Twight: Alpinismo Extremo – Escalar alto, rápido e leve.

O guia tem boa parte de seu conteúdo dedicado às questões técnicas, porém é recheado também de inúmeras breves narrativas das escaladas mais extremas deste atleta, que já solou grandes paredes de gelo vertical e permanece vivo.

Sem tradução para o português (pelo menos até hoje) o livro tem versão em castelhano facilmente compreensível e muito bem traduzido. Aborda temas como Atitude e personalidade; Treinamento (psicológico, força, nutrição); Equipamentos (vestimentas, proteções, materiais); e por fim alguns tópicos pessoais de Twight, como “Seguir vivo”; “Subir”; “Companheiros”; “Bivacs”; e “Descer”.

Por fim, um pequeno trecho do livro, nas palavras do autor: “Com dedicação, e esforços que iam se empilhando uns sobre os outros, utilizei as montanhas para transformar a mim mesmo. Elas me mantiveram honrado. Elas me ameaçaram com consequências fatais se eu falhasse, assim que tive que aprender a estar presente cem por cento a todo momento que estava nelas. Utilizei as montanhas para me colocar à prova e, quando me vi com carências, treinei mais e estudei mais”.

Alpinismo Extremo – Escalar Alto, Rápido y Ligero
Mark F. Twight / James Martin
Ediciones Desnivel
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Girlpower

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No dia 10 de abril, as escaladoras espanholas, Cecília Buil e Miriam Marco lançaram seu projeto “HuEllas”, na livraria Desnivel. A idéia é abrir cinco novas vias nas cinco maiores cordilheiras do mundo (Andes, Cordilheira do Alaska, Tien-Shan, Himalaya e Karakoram).

As escaladoras pretendem cumprir o projeto dentro de dois anos e meio, escalando as Catedrais do Baltoro no Karakoram, as Torres del Paine nos Andes, a agulha Burkett no Alaska, as Grandes Paredes Remotas no Tien-Shan (China) e por fim, o Changabang no Himalaya, a “Montanha Resplandecente”.

Confira matéria na íntegra, em castelhano, com mais links relacionados, clicando aqui.

Foto | Proyecto HuEllas
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Valle Encantado e Agulhas do Frey
Escalando na Argentina sob o céu de Órion

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Estivemos entre os dias 19 de fevereiro e 9 de março na patagônia Argentina em uma viagem que surgiu sem muito planejamento, mas que seguiu com bastante harmonia. A Patagônia nos recebeu em sua plenitude, passamos calor, frio, umidade das chuvas, apanhamos de rajadas de ventos e tempestade de poeira invadindo a barraca, e mais frio com direito a neve. Do agradável e esportivo Valle Encantado ao norte de Bariloche, para o congelante anfiteatro de agulhas de granito do vale do Frey, conseguimos além de escalar muito e quase diariamente, aprender coisas e segredos que só nos são revelados quando estamos lá, nas montanhas.

Eu e Antônio Bortoleto (mais conhecido como “Doutor”) nos conhecemos há uns 7 anos, e por este motivo, já sabíamos como nossa escalada funcionaria, então só restava mesmo acertar detalhes logísticos para a partida. Chegamos na Argentina no dia 19 de fevereiro de 2007, praticamente fim de temporada, em Bariloche, e tínhamos em mente escalar o máximo possível em nosso período relativamente curto (17 dias, tirando um de ida e outro da volta, e alguns outros para descanso e compra de comida) se comparado a outros escaladores que estavam viajando há meses pela Patagônia.

Mochilas cargueiras nas costas, tocamos para o Valle Encantado, um dos principais e mais badalados picos de escalada esportiva no momento naquele país, e cada vez mais, mundialmente conhecido. A presença de um dos mais fortes escaladores do mundo lá confirma esta afirmação. Quando caminhávamos pelas trilhas do Valle, o basco Iker Pou (que no dia seguinte mandou um 10a à vista e decotou para 9c — de 8a+ para 8a) conversava na base de uma via com sua parceira.

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Doc em algum oitavo no setor antigo do Valle Encantado. “Chorreras” e “agujeros”…

A rocha do Valle Encantado é difícil, tanto para ser explicada em palavras, quanto para se acostumar a ela. Para quem está acostumado com rochas como o granito, calcáreo e arenito, nos primeiros contatos com o conglomerado vulcânico do Valle, a dor e a abrasão na pele intimidam. Após três dias de adaptação, a rocha que parecia um “moedor de carne” se torna excelente para escalar, quase não exigindo o uso de magnésio para secar as mãos, de tão áspera. Suas agarras são na maioria pequenos buracos (bolsos, tri-dedos, bi-dedos e mono-dedos) e muitas “chorreras” (algo como corrimãos escorridos pelas paredes) e os movimentos para escalar nestas agarras se tornam um pouco diferentes da escalada em “regletes”, mais comum no Brasil.

O nome do lugar faz jus ao ambiente: é realmente Encantado. Você se sente caminhando em um lugar paradisíaco, não há quase mosquitos, tudo é muito seco, o clima é agradável com temperaturas amenas (entre 10 e 20C) e o silêncio só é interrompido pelo movimento da estrada que margeia o rio Limay (nome indígena local, do idioma mapuche, e que significa “cristalino”). Chegamos no Valle Encantado de tarde e cruzamos o rio de carona em um bote de uns chilenos.

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Uma das travessias do rio com bote inflável, água a 4ºC, quem se aventura a cruzar nadando corre o risco de não chegar do outro lado e perder o fôlego para a hipotermia

Montamos acampamento e fomos escalar. De noite, ouvimos rumores que não era seguro e nem permitido acampar do lado “de lá” do rio, onde supostamente é propriedade privada. Do lado da rodovia, sem cruzar o rio, é área do Parque Nacional Nahuel Huapi, portanto optamos por levantar o acampamento e cruzar novamente o rio, e tudo isso a noite.

Para resolvermos o “problema” de depender de carona no bote dos outros toda vez que queríamos cruzar o rio para escalar do outro lado, decidimos comprar um bote inflável infantil na cidade. No Shopping principal de Bariloche, há uma loja de brinquedos que você pode encontrar botes infantis por 60 pesos (uns 47 reais aproximadamente), e ficar livre para atravessar o rio quando bem entender. No fim da viagem doamos o nosso bote para uns norte-americanos que haviam acabado de chegar, um deles inclusive era ninguém menos que o parceiro do falecido Todd Skinner, Jim Hewett.

Encontramos outro amigo brasileiro, Márcio Rosa, que já estava lá no Valle e seguimos cada um com seus projetos individuais de escalada esportiva. “Doc” buscando a cadena de algum 9o grau, Rosa trabalhando oitavos, e eu apenas fazendo volume em sextos e sétimos, tentando ignorar minha “amiga” tendinite, causadora de fortes dores em vários momentos. Ora ou outra me sobrava a árdua tarefa de “limpar” as vias que eles equipavam, o que eu fazia com prazer, já que entrar em graus acima do meu limite me traz novas percepções do que terei de enfrentar um dia quando quiser e estiver apto a subir meu grau esportivo em rocha. Para limpar vias muito negativas era mais fácil eu entrar de “top rope” e limpar de baixo, do que para eles rapelarem a via limpando de cima, o que em muitos casos era até impossível, tamanha a inclinação negativa da parede.

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Nosso “campo base” no Valle. É altamente aconselhável acampar protegido dentro de grutas como esta. Acampar fora delas nos custou uma noite “mergulhados” na poeira graças a uma tempestade de vento

Frey
Eu estava ansioso para conhecer o vale do Frey e suas agulhas, coisa que só havia visto em revistas ou sites. Não era minha primeira experiência em um ambiente mais alto e gelado, mas cada lugar tem sua particularidade. Na segunda semana de viagem, após uma noite bem dormida, banho quente e cama de verdade na senhora Ellen, em Bariloche, partimos para o Frey. Existem duas opções para se chegar ao Frey. Pela trilha desde a base do Cerro Catedral, que contorna a montanha e vai pelo vale, ou via teleférico, com outra caminhada pela face oposta da montanha. A primeira opção exige uma caminhada de no mínimo 4 horas com as mochilas cargueiras de mais de 20kg nas costas, e a segunda opção diminui a caminhada em 2 horas, porém tem o custo adicional de 25 pesos do teleférico. Optamos por subir de teleférico e descer pela outra no dia de ir embora, pois não tínhamos muito tempo, e queríamos chegar o mais rápido possível no vale do Frey para tentar escalar já naquele dia, que apresentava tempo excelente.

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A caminho do vale do Frey depois de descer do teleférico. A partir deste ponto, mais três horas de muita caminhada em terreno de pedras soltas e belas paisagens

O Márcio Rosa fez a trilha em 2h, Doc fez em 2h30, e eu em 3 horas. O terreno muito acidentado, mas com uma vista fantástica do monte Tronador, judiava dos joelhos. Muita pedra solta e muito sol, aliados ao peso da cargueira, tornavam a caminhada bastante cansativa. A todo momento me lembrava da importância de se treinar muito aeróbio e subir escadas para fortalecer as pernas. Voltei para o Brasil com algumas dores nos joelhos por causa da falta de preparo.

Chegamos, armamos acampamento, ou como os brasileiros costumam chamar lá, “a favela”, e corremos para escalar antes do fim do dia (já eram mais de 15h mas lá só escurece por volta das 20h30) e entramos na via clássica “Sifuentes”, um quinto grau muito frequentado na Agulha Frey. Guiei a primeira enfiada, de um total de 4, e escalamos em três, o que tornou a escalada muito lenta, já que o ideal é em dupla. No fim da via estávamos já a poucos minutos da chegada da noite, mas ainda com luz suficiente para descer, porém o vento chegou com força total e o frio dominou gelando até os ossos. Chegamos no cume mas só pensávamos em saír dali “correndo”, não tivemos sequer tempo para uma foto, foi só armar o rapel e descer rapidamente pra sair daquela geladeira. A temperatura era de aproximadamente 4 ou 5 graus, mas com o vento, estava abaixo de zero.

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O refúgio Frey que acaba de completar 50 anos

O granito no Frey, apesar de sólido, é escorregadio para os pés e muito gelado para as mãos, exigindo alguns dias de aclimatação para acostumar com estas condições. A exposição e as vias em sua maioria de escalada tradicional (usando móveis apenas e só as paradas equipadas, e muitas paradas também em móvel) é fator que exige alguns dias para se acostumar psicologicamente, pois as quedas são potencialmente grandes (sempre mais de 5 metros no mínimo, a menos que você carregue toneladas de peças para equipar a via). Além do potencial de quedas maiores, muitas proteções são duvidosas, em fendas muito estreitas ou muito largas (off-width), podendo sair no caso de queda aumentando ainda mais o “vôo”.

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A agulha que dá nome ao vale, “Aguja Frey”. A via que fizemos, Sifuentes, segue pelas fendas situadas à esquerda do eixo central da parede num total de 200m aproximadamente (4 cordadas)

O vale do Frey é como um anfiteatro gigantesco, um coliseu de pedras e agulhas a 1700 metros em sua base, que sobe até 2500m, que é o cume da Agulha Principal. De volta da Sifuentes e satisfeitos e gelados, dormimos na esperança que o tempo bom se manteria no dia seguinte. Acordamos com sol e céu azul, preparamos o café da manhã, e quando começamos a organizar os equipamentos e discutir que via escalaríamos, começou a entrar o “famoso” vento oeste vale abaixo e algumas nuvens escuras apontaram atrás da Principal. Nada bom. Beto e Braga, amigos brasileiros que já estavam no Frey a quarenta dias, nos avisaram, “hoje não tem escalada”.

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Doc e Rosa acelerando pra fugir do frio. Escalar na sombra torna tudo mais difícil pela sensação de frio e aqui ainda estávamos na segunda parada

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Antônio guiando a terceira enfiada da Sifuentes, por volta das 5h30 da tarde

Só nos restava esperar pelo dia seguinte e matar este dia com caminhadas ou no refúgio. Enquanto todos decidiram ir comer pizza no refúgio, escolhi subir até a aresta que divide o vale do Frey do outro vale, do Campanille. Fui sozinho e avisei todos que iria depois direto para o refúgio encontrar com eles. Minha idéia era tentar um cume acima da agulha Frey, mesmo com o tempo fechando cada vez mais, já que o terreno era fácil.

Com 15 minutos de subida já estava na aresta, que é bastante larga, e avistei o outro vale, tão incrível quanto o do Frey. Segui em direção ao cume à esquerda, sempre de olho na pressão atmosférica e nas nuvens nas minhas costas, o vento desequilibrava um pouco em rajadas mais fortes, mas tudo corria bem. Resolvi abandonar a idéia quando cheguei mais perto do cume, o terreno se mostrou instável, com chances de avalanches de pedra e como eu estava sem corda, preferi não arriscar. Afinal, subir é fácil, mas descer nem tanto. Tente subir uma árvore e na descida você descobrirá que não é tão simples quanto foi na subida. O mesmo vale na rocha. Cheguei a uns 150 metros do cume e voltei. Depois de meia hora estava no calor do refúgio com os “monstros” que devoravam uma pizza com cerveja.

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O tempo fechou rapidamente. Á esquerda do centro da foto, ao fundo, sumindo entre as nuvens, a Agulha Principal (2500m)

No dia seguinte, o tempo estava ainda pior, e a noite tinha sido a mais gelada dos últimos 2 dias no Frey, com direito a neve. Eu estava com um saco de dormir para 1C e não para -10C, o que tornou minhas noites no Frey um verdadeiro terror gelado. Nesta noite, pela primeira vez senti dores nos joelhos de tanto frio, parecia que minhas cartilagens estavam congelando (exagero é claro). Decidi descer no terceiro dia, já que não teríamos chances de escalar novamente. Falei para o Doc, ele concordou. Levantamos acampamento, o Rosa decidiu ficar mais alguns dias para esperar melhora no tempo e escalar outras vias no Frey. Eu e Doc tocamos para o Valle Encantado, já com saudades do calor de lá.

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Braga, Rosa, Doc, Uirá, Beto

Estes dias de frio, escalada em paredes geladas, exposição em granito patagônico, foram um grande aprendizado. Saber que tipo de equipamento é fundamental e quais são inúteis, conhecer as temperaturas e como o tempo muda em questão de minutos, conhecer a si mesmo enfrentando alguns medos em vias expostas a quedas maiores, saber escalar fendas e os movimentos necessários neste tipo de via, o verdadeiro significado do vento patagônico, valeu mais que qualquer manual, guia, livro, ou leitura. Outra boa notícia para quem pretende escalar nestes locais da Argentina, é que Bariloche fica muito mais “barata” no verão, já que o turismo lá é fortemente focado nas férias de inverno e esqui. A cidade fica mais bela, quente, vazia, barata, sem filas, e você poderá conhecer melhor lugares que nem enxergaria na alta temporada turística. Escalando, você também terá a oportunidade de conhecer pessoas do mundo todo nestes lugares. Conversar em inglês, francês, espanhol, ouvir italiano e alemão, ou o “portunhol” do nosso amigo ao chamar o responsável pelo refúgio Frey, “Cordobeis! Vê dois alfajor pra nóis!”.

Fotos | Antônio Bortoleto; Márcio Rosa; Uirá Lopes
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Federação Internacional de Escalada Esportiva

Nasceu em outubro de 2006 a Federação Internacional de Escalada Esportiva (International Federation of Sport Climbing – IFSC), a partir de uma assembléia geral da União Internacional das Associações de Alpinismo (UIAA), que aconteceu na cidade de Banff, no Canadá.

A cidade, conhecida pela comunidade montanhista mundial por seu festival internacional de filmes de montanhas, acolheu esta assembléia que votou, por quase unanimidade, a criação da IFSC cujo atual e primeiro presidente é Marco Scolaris.

Dentre as primeiras metas da IFSC, o reconhecimento da entidade pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e a inclusão da escalada esportiva como modalidade esportiva olímpica, uma “guerra” que se arrasta há anos. Além de ser o segmento do montanhismo que mais rende recursos financeiros, a escalada esportiva possui grande dinamismo para fazer bonito em uma olimpíada. Leia matéria na íntegra, em castelhano, clicando aqui.

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O Oscar da Montanha

O prêmio Piolet D´Or, concedido anualmente pela revista francesa Montagnes, pode ser comparado ao “Oscar” das atividades de montanha, mais especificamente ao alpinismo ou escaladas em grandes paredes e altitudes. Os vencedores da última edição, os eslovenos Boris Lorencic e Marko Prezelj, levaram o prêmio por sua impressionante escalada no pilar noroeste do pico tibetano Chomo Lhari’s.

Além de ser a primeira ascensão da parede com cerca de 7 mil metros de altitude, os eslovenos conseguiram o feito em uma aproximação em estilo alpino de 6 dias, enfrentando dificuldades “severas e um frio brutal”, segundo Dougald MacDonald da revista Climbing. A via, que segue por uma cresta extremamente exposta e com trechos de escalada muito técnica, foi vencida com apenas dois bivaques*. Veja matéria na íntegra, em inglês, clicando aqui.

(*) Bivaque é o termo usado por montanhistas para especificar o local de pernoite. Não é um acampamento propriamente dito, com barracas montadas. É uma instalação simples, normalmente utilizando apenas sacos de dormir. Em paredes como esta na foto, é comum dormir pendurado. Os pequenos pontos alaranjados na foto representam os locais dos bivaques.
[Foto: Revista Climbing]
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Glossário – parte dois
Acesse periodicamente para conhecer mais palavras e termos do montanhismo

Costuras – São formadas por 2 mosquetões e uma fita e servem para segurança. As costuras são clipadas em chapeletas de aço em uma extremidade, e na outra passa-se a corda. As costuras salvam a vida dos escaladores em caso de queda.

Crux – Trecho, sessão, sequência de movimentos mais difícil da via. Normalmente o crux determina o grau da via. Por exemplo, uma via pode ser inteira 4º grau (bastante fácil), porém, se tiver um crux de 7º grau, seu grau será 7. Pois uma pessoa que não tiver condicionamento e treino para ultrapassar um sétimo grau, não conseguirá transpor um crux de 7º e desta forma não terminará a via.

Encadenar / Mandar – Encadenar ou “mandar” uma via é motivo de grande satisfação para quem pratica e treina regularmente. Quanto maior o grau de dificuldade de uma via, mais trabalho ela dará ao escalador ou escaladora para conseguir encadenar. Há mais de uma maneira de se “mandar” uma via. Basicamente, encadenar / mandar, é sair da base da via guiando e chegar até a próxima “parada”, sem sofrer nenhuma queda. O termo “encadenar” deriva da palavra cadena, do espanhol, que significa “corrente”. Os “elos” desta corrente são os movimentos da escalada para se completar a via. A ligação de todos estes movimentos, forma a corrente, ou seja a cadena, daí o termo encadenar.

Escalada Esportiva – Atividade esportiva que compõe o mundo do montanhismo. A escalada esportiva é extremamente dinâmica. Sua evolução é ágil e permanente. O que se considerava impossível há algumas décadas, hoje já foi amplamente ultrapassado. Os atletas e praticantes de hoje, as novas gerações e as mais experientes também, conseguem escalar graus de dificuldade em rocha e gelo de grande exigência física e psicológica. A escalada esportiva tem como principal terreno de atuação as paredes de rocha de inúmeros tamanhos e altitudes e inclinações. Suas particularidades também foram levadas para a escalada técnica de paredes cobertas de gelo e glaciares verticais.

Escalada em Gelo – A escalada técnica em gelo é extremamente perigosa e difícil. Exige conhecimentos de neve e gelo e suas particularidades, texturas, graus de temperatura. O gelo é extremamente instável em certas situações e torna o ato de escalar algo muito perigoso. Com a evolução do esporte, esses riscos podem ser minimizados. Escalar em horários com menos incidência de sol, por exemplo, é mais aconselhável em algumas situações, pois o gelo estará mais duro na sombra. Grandes paredes com centenas e milhares de metros verticais foram escaladas com a evolução desta modalidade.

Estilo Alpino – Aproximação às montanhas em estilo leve e rápido. Pode ser considerado o oposto ao estilo de aproximação de uma Expedição. Grupo pequeno de pessoas ou até mesmo um único montanhista, faz uma aproximação e uma escalada com poucos equipamentos (apenas o essencial) e visando máxima velocidade (permanência de poucas horas ou dias na parede). É também considerado um estilo puro e autêntico, respeitado pelos montanhistas do mundo todo, e que pressupõe grande preparo e conhecimento daquele que escala desta forma. Um exemplo muito conhecido mundialmente de pioneirismo em estilo alpino é o montanhista alemão Reinhold Messner, primeiro a escalar todas as 14 montanhas acima dos 8 mil metros do planeta neste estilo e sem uso de oxigênio suplementar.

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O Ambiente de Montanha e a importância do conhecimento científico
O artigo abaixo é parte de um trabalho de conclusão do Curso de Divulgação Científica em Redação Avançada, realizado na Universidade de São Paulo, durante o ano de 2005.

PARTE 2

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Equipamentos: tecnologia de ponta

A indústria de equipamentos para montanha movimenta milhões de dólares por ano em todo o planeta. Além dos conhecimentos sobre os perigos que a altitude oferece, os candidatos a aventureiros de montanhas devem necessariamente se familiarizar com uma vasta gama de equipamentos. São cordas, ferragens, vestimentas, calçados, materiais para acampamento e sobrevivência que usam matérias primas caras e de alto valor tecnológico agregado.

Fibras para impermeabilização de roupas são desenvolvidas com materiais como cerâmica e nylon tratado, e o famoso gore-tex, composto para tecidos utilizado inclusive em operações cirúrgicas em humanos, para isolar dois órgãos internos no corpo, graças às suas propriedades impermeáveis e por não causar reações ou rejeição entre os tecidos.

Este composto sintético, desenvolvido com avanços da química para tecidos e vestimentas, é usado em jaquetas impermeáveis para situações extremas de frio, nevascas, tempestades e vento. Está presente em quase todas as roupas usadas pelos atletas que freqüentam ambientes de montanhas.

Ligas metálicas que usam titânio, alumínio e aço também são parte da contribuição das ciências para o montanhismo, e nas cordas, nylon sintético tratado para resistir abrasões e absorção de impactos em caso de queda dos escaladores. Os utensílios de acampamento também tem tratamento especial, como coberturas de barracas que resistem a ventos de até 150km/h, feitas com material extremamente leve e resistente, custam fortunas em dólares, mas são o abrigo seguro em alta montanha em caso de uma tempestade de neve.

No lugar dos confortáveis colchonetes, entram os isolantes térmicos e os sacos de dormir que permitem uma noite relativamente confortável a temperaturas de até 50 graus negativos.

Na hora das refeições, fogareiros de alta pressão e que aceitam praticamente todos os tipos de combustíveis garantem o calor necessário para a ebulição da água, que em alta montanha ferve bem abaixo dos 100ºC do nível do mar. Os fogareiros mais modernos têm peças de titânio e são extremamente compactos e leves.

Como a atividade em alta montanha exige muita caminhada ao ar livre, as extremidades do corpo devem ser muito bem protegidas, e os calçados também exigem grande emprego de tecnologia e pesquisas em materiais, especificações técnicas, e design, para evitar o congelamento dos membros inferiores e dedos dos pés e das mãos.

Durante o dia, outro problema, a neve reflete a luz solar e causa cegueira temporária nos desavisados sem óculos escuros com proteção adequada contra raios ultravioleta. E durante a noite, a visibilidade torna-se bastante reduzida e o uso de lanternas de cabeça é requisito para sobrevivência, já que o terreno íngreme não oferece muita segurança. Para carregar tantos equipamentos, não se pode confiar em qualquer mochila, e por isso algumas indústrias do setor investem em mochilas ergonômicas e feitas com tecido extremamente resistente, com boa capacidade de carga. Um montanhista carrega até 80 quilos nas costas para sobreviver e aventurar-se por apenas alguns dias em um ambiente alpino.

Em breve, na próxima parte da série “O Ambiente de Montanha e a importância do conhecimento científico” – Logística e Estratégia

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Glossário
Acesse periodicamente para conhecer mais palavras e termos do montanhismo

Agarras – Existem inúmeros tipos de agarras. As agarras são os pontos de apoio para as mãos e os pés usados na escalada da via. Quanto maior o grau de dificuldade da via, menor o tamanho das agarras, e/ou sua inclinação. Por exemplo, um 4º grau certamente tem agarras grandes para os pés e mãos, enquanto que um 9º ou 10º grau terá agarras muito menores (algumas apenas para um dedo ou dois dedos). As vias mais difíceis também podem apresentar inclinação negativa em relação ao solo, formando tetos. Tipos mais comuns de agarras em rocha: regletes – geralmente pequenos batentes, retos e na posição horizontal, porém também aparecem em quaisquer outras posições (vertical, diagonal, invertidos); abaulados – agarras arredondadas em que normalmente a mão fica aberta e a aderência é a principal forma de contato; bidedos e monodedos – agarras que oferecem aderência / contato para apenas um ou dois dedos das mãos.

Cadeirinha – Equipamento individual e fundamental do escalador / escaladora. Espécie de cinturão que envolve cintura e pernas, formando um centro de gravidade na região abdominal da pessoa, a corda vai atada na cadeirinha. Em caso de queda, e para descer, a pessoa senta pendurada na cadeirinha. Usada corretamente, garante segurança. Como todo equipamento, se usado com negligência e incorretamente, pode causar acidentes e até a morte.

Chapeletas – Pequenas chapas de aço, parecidas com argolas, parafusadas na rocha de vias esportivas. Resistem a cargas de 2,5 toneladas em média. Uma via esportiva tem em média 12 chapeletas. Compõem o sistema cadeirinha – corda – costuras – mosquetões – chapeletas – paradas. A dupla de escalada está conectada ao sistema. Este sistema deve ser estudando previamente e seu uso salva a vida do praticante.

Cordadas / Enfiadas – Vias longas precisam ser escaladas em etapas. Uma via de 300 metros, por exemplo, exigirá pelo menos 6 cordadas, utilizando cordas de 50 metros, ou 5 cordadas (com cordas de 60m). Entre cada cordada, uma parada. A dupla de escaladores pode alternar as guiadas.

Em breve mais termos do glossário, acesse periodicamente para conferir
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Sentidos e significados do montanhismo
Este artigo foi adaptado a partir de um projeto de pós-graduação ainda em desenvolvimento.

Em tempos em que o lazer perde sua essência para tornar-se mercadoria, um mero “pacote” à venda, o montanhismo (na nossa visão) representa: “Um lazer que não faça do indivíduo um “robô alegre”, satisfeito com sua condição a despeito da constante coação da qual é objeto por parte de um ‘aparelho cultural’ cada vez mais centralizado. (…), a questão fundamental à qual tenta responder Wright Mills é a seguinte: que tipo de homem e de mulher a sociedade tende a criar? [Mills, 1963]” (MATTELART, 1999:56).

Acreditamos que as atividades ao ar livre representam mais que pacotes turísticos, consumo de equipamentos modernos e de imagens (expressas através das fotografias de grandes espaços naturais ou das campanhas publicitárias dos veículos adventure na televisão). O montanhismo contribui para formar indivíduos conectados ao meio ambiente através de uma relação honesta, e prazeirosa, apesar de arriscada em muitos aspectos.

Ainda que “o triunfo da estética sobre a ética não podia ser mais evidente” (HARVEY, 2004:295) na sociedade moderna contemporânea, queremos salientar que também no montanhismo e na escalada existe uma cultura de debate sobre a ética nas relações sociais e com o meio ambiente.

Para citar um exemplo, o Código de Montanha, elaborado pela União Internacional de Associações de Alpinismo (UIAA), em seu artigo 13, “Junto com as associações de montanhismo e outros grupos de conservação, somos pró-ativos a nível político pela proteção de habitats e o meio ambiente” (ver revista Headwall, nº 4, pg. 14).

O mercado que se auto-rotula, “de aventura”, no Brasil, cresce anualmente e adquire novos adeptos em todas suas áreas de atuação: novos praticantes, novos profissionais, lojistas, comerciantes, novas marcas de equipamentos, e até mesmo a indústria automobilística aposta com seus veículos adventure. Uma feira anual, a Adventure Sports Fair, que acontece na capital paulista e já é a maior do gênero na América Latina, aponta crescimentos anuais do chamado “mercado de aventura”.

“A Organização Mundial do Turismo estima um crescimento 20% superior do ecoturismo face ao turismo tradicional, o que denota uma nova tendência global, onde o turista não mais deseja ser um mero expectador de sua viagem, mas sim, o protagonista, que efetivamente vivencia os novos destinos visitados. O Turismo de Aventura possui uma importante zona de intercessão conceitual com o Ecoturismo, principalmente por causa do ambiente onde são comumente desenvolvidas essas atividades. Enquanto no Ecoturismo, de um modo geral, o turista tem uma postura mais contemplativa diante do espaço natural e seu intuito é desfrutar e aprender com a interação com o meio e as comunidades nos destinos, o foco do Turismo de Aventura é, essencialmente, a prática da atividade de aventura em si, embora, eventualmente, haja também uma integração espontânea e harmoniosa com o meio. Ademais, no Turismo de Aventura há um engajamento físico e psicológico mais intenso do turista.” (Associação Brasileira das Empresas de Turismo de Aventura – Abeta 2006) (Grifo nosso).

Outro estudioso, o norte-americano Jochen Hemmleb, especialista em história do Everest, credita o crescimento das atividades de montanha, à sua essência. “Por difícil e perigoso que o montanhismo possa ser”, explica, “há nele uma pureza e uma simplicidade inerentes. Acho que a razão pela qual o montanhismo se popularizou nos últimos anos é o fato de suprir uma necessidade emocional: uma escalada tem um começo, um meio e um fim. Tem um propósito claro – chegar ao cume e lidar com as complexidades da rota e com a sensação de exposição – e um resultado claro: alcança-se ou não o cume. Não é vago, incerto ou equívoco como boa parte da vida moderna. E é mais do que um mero desafio físico; é também um desafio intelectual e emocional. Não se alcança um ponto alto apenas na topografia, mas também nas emoções. Nada sintetiza melhor a idéia de realização e da satisfação decorrentes do que galgar o topo de uma montanha.” (leia em Fantasmas do Everest, pg. 26. Ed. Cia. das Letras, 1999).

O caráter histórico do montanhismo também representa um campo de estudo amplo. Indícios e relatos apontam, em diversas sociedades antigas, a prática de subir montanhas (inclusive na Bíblia) para se “chegar mais perto de Deus”. Na América Latina, os antigos povos descendentes de índios, e Incas, subiam as montanhas nos Andes para realizar cerimônias e oferendas para seus deuses.

“(…) el andino Licáncabur, donde las devociones incas anteriores al siglo XV supusieron verdaderos récords de altitud hasta el XIX; (…)” (ÁLVARO e PISÓN, 2002:92).

E pelo mundo afora:

“Montanhas sempre foram um chamado para a humanidade. (…) Desde os primórdios, encontramos associações entre montanhas e muitas religiões dos homens, e filósofos, artistas, sábios e cientistas. Muitos picos ainda são considerados sagrados, com seus cumes “fechados”, como o Kanchengjunga, 8586m; Macapuchare, 6993m; e Kailas, 6700m, que é considerado o Trono de Shiva e centro de veneração budista e hindu. Índios norte-americanos acreditam que torres do deserto são locais sagrados. O tema místico-religioso ecoa por diversas montanhas do mundo – o Monte Olimpus, casa dos deuses gregos; o Monte Kenya, lugar dos espíritos de Kikuyu; o Monte Fuji, também lar de antigos espíritos. As reações das pessoas perante as montanhas passaram por vastas mudanças – ainda em 1690, o Bispo de Genebra submeteu-se a uma ‘jornada de perigo mortal’ para exorcizar as geleiras de Chamonix, que ‘eram obra diabólica que esmagavam os celeiros’. Talvez seja difícil imaginarmos o medo supersticioso com que nossos ancestrais olhavam para aqueles picos inacessíveis, mesmo os tibetanos e outros povos de montanhas mantêm crenças muito similares até os dias de hoje.” (HATTINGH, 1999) (Citação traduzida).

Os nomes de muitas montanhas também trazem consigo significações que demonstram sua ligação com o os povos locais, suas crenças e tradições. Ama Dablam, montanha localizada no Himalaya cujo nome significa, ‘Colar da Mãe’ ou a montanha Cho Oyu, na mesma cordilheira, é a ‘Deusa Turquesa’ e até mesmo o Everest, pico mais famoso e alto do planeta, em seu nome original tibetano Chomolungma, é a ‘Mãe Deusa da Terra’. No Brasil temos exemplos clássicos como ‘Dedo de Deus’, no Rio de Janeiro, o ‘Cuscuzeiro’ no interior paulista, por sua coloração e formato lembrarem um cuscuz, ou ainda a ‘Pedra do Baú’, também em São Paulo.

Tudo isto que você acaba de ler representa apenas uma parcela de todo um universo que é o montanhismo e suas atividades relacionadas, onde o aprendizado deve ser incorporado como algo diário, inerente e fundamental para uma prática contemplativa, esportiva e harmoniosa, com segurança.

Bibliografia de Referência

MATTELART, Armand e Michele. História das teorias da comunicação. São Paulo: Ed. Loyola, 1999.

HARVEY, David. Condição Pós-Moderna. 13ª ed. São Paulo: Ed. Loyola, 2004.

ARAGÃO JR., Felipe. Carta Aberta à Sociedade – Turismo de Aventura e Ecoturismo. Disponível em:
. Acesso em: 5 out. 2006.

ÁLVARO, Sebastián; MARTÍNEZ DE PISÓN, Eduardo. Las Montañas Sagradas. Desnivel, Madrid, nº 184, p. 92, abril, 2002.

HATTINGH, Garth. Climbing – The World’s Best Sites. New York: Ed. Rizzoli, 1999.

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MALDITOS TORPEDOS

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Tradução livre da série “Loucura do Vento”, da revista norte-americana Climbing, sobre o Cerro Torre – patagônia chilena. Versão original: “Damn Torpedoes

A face sul do Cerro Torre é o obstáculo mais grotesco da Patagônia, se parece com uma garrafa de vinho com sete mil pés (aprox. 2300m) verticais e inclinados – e uma altitude de 3.133m em relação ao nível do mar. Um íngreme campo de gelo adere a face por dois terços da altura. O muro abaixo do gelo é escuro e monolítico, e não demonstra fraquezas. A parte superior, o pescoço da garrafa, é liso e inexpressivo e incompreensivelmente exposto, tanto para a milha vertical abaixo (1,6 mil metros) como para as tempestades austrais que varrem a capa de gelo. O planeta Terra talvez não tenha outra peça tão impressionante de terreno alpino.

Em novembro de 1987, os eslovenos durões, Silvo Karo e Janez Jeglic, começaram a face sul acima. Karo, um escalador sombrio e muito forte, com antebraços parecidos com os do “Popeye”, e Jeglic, um montanhista intenso e rude, eram veteranos em três primeiras ascensões patagônicas (no Fitz Roy, na Torre Egger, e na face leste do Cerro Torre). Pedras caindo golpearam constantemente os dois durante as sete primeiras cordadas no Torre, difíceis e perigosas em terreno misto de gelo e rocha na base da face sul.

Acima, os eslovenos escalaram longas seções de rocha podre e de inclinação negativa em artificial, com passagens intercaladas ocasionais de escalada livre. Eles tiveram que escavar o gelo em praticamente todos os movimentos, tanto para inserir peças em artificial, como para encontrar agarras para as mãos e pés. Durante os dois meses seguintes em campanha e debaixo de constantes tempestades patagônicas, Jeglic e Karo fixaram mais de 760 metros de cordas, porém ainda restavam mais de 300 metros de um campo de gelo acima. As cordas restantes que possuíam estavam muito desgastadas para serem usadas, então emprestaram uma corda um pouco melhor de um time suíço e se prepararam para atacar o topo.

O clima tinha outros planos. Durante três semanas e meia, nenhum sinal de bom tempo durou mais que poucas horas. Finalmente uma oportunidade: o céu estava estrelado quando os dois deixaram seus bivaques abaixo do El Mocho à meia-noite no dia 19 de janeiro de 1988, mas assim que alcançaram suas cordas por volta das duas da manhã, ventos nauseantes trouxeram nuvens escuras e tensas pelo céu noturno. Eles se abrigaram em uma greta e ficaram jogados de frente a seus limites de estadia – suas passagens aéreas e vistos argentinos expiravam.

Ao meio-dia do dia seguinte eles haviam escalado para além de suas cordas fixas até um ponto 100 metros abaixo do campo de gelo. Diante deles, uma faixa com mais de 10 metros de negativos que poderiam eliminar suas tentativas de retorno uma vez ultrapassados. “Atrás de nós havia um verdadeiro furacão”, disse Karo. Neste momento ele notou que a corda suíça estava “sangrando” nylon de uma perfuração tripla. “Estávamos nas mãos do vento e a 800 metros do chão”, disse Karo. “Ver uma corda podre não foi nada animador”. Eles cortaram o final rasgado da corda e escalaram os tetos. Na virada, foram abraçados por ventos violentos e neblina fina. A única maneira de sair dali era escalando até a Via do Compressor, para alcançarem uma linha de retirada.

Um estrondo infernal soou acima do topo do Cerro Torre. O gelo fino cobriu seus equipamentos. Estavam desorientados. Os dois gelados e o vento cortante se recusava a deixá-los escalar ou mesmo vestir mais roupas. “A tempestade era completamente louca”, disse Karo. “Não conseguíamos nos comunicar”. Finalmente alcançaram o campo de gelo, que inclinava para o oeste, diretamente para a fúria do vento. Blocos de gelo do tamanho de televisões descolaram das partes mais altas da montanha, despencaram pela tempestade e explodiram ao lado deles. Desesperados, eles atravessaram direto para a Via do Compressor. “Tivemos a grande idéia de filmar, e assim carregávamos uma filmadora de 16mm, ao invés de uma quarta ferramenta de gelo”, lembrou Karo. “O problema é que estava ventando demais para usar (a filmadora), ao mesmo tempo que era muito dinheiro para se jogar fora. Então segui escalando com apenas uma ferramenta”.

Bem à direita, Jeglic fez segurança de dois parafusos de gelo frouxos. Chacoalhado pelo terrível vento, Karo começou a sua travessia. “O gelo era inclinado, 70 ou 80 graus”, disse, “e eu tinha uma luva de lã, então eu congelava até os ossos cada vez que tentava me segurar melhor com a mão sem luva”. Minutos depois de ter começado sua travessia, uma rajada feroz arrancou Karo da parede. Rodopiando o campo de gelo abaixo ele pensou duas coisas: “Janez vai conseguir me segurar?” e “A corda arranhada vai agüentar?”. Karo sentiu um puxão gigante no meio do seu corpo enquanto batia em algumas rochas saindo do gelo.

Ele havia caído mais de 30 metros, parando apenas a uma pequena distância da base do platô de gelo, à beira do abismo. “Eu não conseguia acreditar que continuava amarrado à parede”, lembra Karo. Ele escalou de volta até Jeglic, diretamente até seu companheiro depois do pêndulo selvagem que passara. “Mais fácil do que fazer a travessia não?”. Mais tarde naquela noite eles alcançaram a Via do Compressor. Quarenta e seis cordadas de uma nova via deixadas para trás. Eles haviam planejado descer pela face leste, onde haviam escalado anteriormente na temporada de 1985-86, mas perceberam que seria impossível com apenas uma corda curta. Nenhum dos dois conheciam a Via do Compressor, mas não tinham opções. Batalhando através da escuridão e a tempestade nas horas iniciais da manhã, eles terminaram exaustos em uma caverna natural de neve no Col da Paciência, o col alto a cerca de 500 metros de altura, nevado e de terreno misto, que marca o início da Via do Compressor. “Não conseguíamos acreditar que a tempestade que nos acompanhara durante as últimas 24 horas não conseguia mais nos alcançar dentro da caverna”, disse Karo. “Estávamos muito felizes”.

Em outubro de 1997, Janez Jeglic faleceu próximo do cume noroeste do Nuptse, de 25,400 pés, após escalar a face oeste com Tomaz Humar.

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O Ambiente de Montanha e a importância do conhecimento científico
O artigo abaixo é parte de um trabalho de conclusão do Curso de Divulgação Científica em Redação Avançada, realizado na Universidade de São Paulo, durante o ano de 2005.

PARTE 1

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Grandes espaços e altitudes, clima imprevisível e hostil, natureza selvagem em um ambiente pouco acolhedor aos humanos. Para sobreviver e apreciar o ambiente de montanha é preciso uma bagagem importante, não só de equipamentos, mas de conhecimentos.

Acima dos 4 mil metros de altitude a baixa pressão atmosférica torna o ato de respirar extremamente difícil. A baixa pressão dificulta a absorção de oxigênio no organismo, tornando a atividade física cansativa e o raciocínio lento na tomada de decisões.

Ao contrário do que diz o senso comum, não é a “falta de oxigênio” que causa os males de altitude, como edema pulmonar e em casos mais graves, o edema cerebral, e sim a baixa pressão atmosférica. Quanto mais alto, menor a pressão, menor a absorção de O2 pelo corpo, menor a oxigenação do sangue, menor a capacidade física geral do organismo. Como se costuma dizer entre os montanhistas, acima dos 7 mil metros você está morrendo a cada instante. É a zona da morte.

Este fator aumenta os riscos da atividade em alta montanha. Além de um treino físico fundamental e de uma aclimatação adequada, o interessado em conhecer montanhas acima dos 4 mil metros deve adquirir outros conhecimentos técnicos, históricos e científicos. Por exemplo, conhecer a região previamente, através de estudos cartográficos, mapas e registros históricos é importante para uma boa aproximação, evitando acidentes, ou ainda se perder em uma cadeia de montanhas, o que significaria dias em maus lençóis e poucas certezas de um resgate.

Conhecimentos técnicos e científicos mínimos sobre o gelo e neve também são fundamentais. Ninguém deve se aventurar em um ambiente como este sem conhecer o comportamento do gelo e as diferentes formas e texturas da neve, os horários mais seguros para se estar em locais gelados e as peculiaridades do terreno misto das montanhas, formado por gelo, neve e rochas. Um exemplo bastante interessante é o caso da escalada em gelo (veja que fazemos aqui uma distinção entre gelo e neve, formas diferentes da água em estado sólido e que varia muito conforme o clima, a altitude, o vento, o tipo de rocha que está embaixo e a inclinação do terreno) em que se usa uma ferramenta chamada “piqueta” ou em francês, piolet. O piolet é como um pequeno machado pontiagudo, uma picareta pequena que espeta o gelo. É um picador de gelo “gigante”, e que pode salvar sua vida na montanha.

O funcionamento do piolet baseia-se em fundamentos da física e química para dar segurança aos montanhistas. Ao espetar o piolet no gelo, a alta pressão exercida por sua ponta afiada derrete o gelo e penetra a camada dura de água congelada. Como o ambiente é muito frio, imediatamente após a penetração, a água que derreteu volta a congelar em torno da ponta do piolet “colando” a ferramenta na camada de gelo, tudo em questão de segundos. Esta técnica torna a subida relativamente segura, mas quanto maior a inclinação da parede, maior o risco, já que o gelo é bastante instável.

São muitos os exemplos em que a ciência está presente nas atividades de montanha, desde a medicina especializada em males de altitude, a geografia e geologia que estuda as rochas, a biologia, o gerenciamento de materiais e logística que as grandes expedições exigem, os diversos equipamentos necessários para a segurança e comunicação dos membros de uma expedição, e o fator psicológico, muito importante para uma boa estadia em ambientes selvagens e extremamente frios, exposto a grandes altitudes, grandes quedas, e também grandes recompensas da natureza.
(foto: Uirá Lopes)

12 respostas em “àvista

  1. Vi seu site tudo de novo. A foto e a entrevista enriquece o caminho, sem dúvida. Mas esta última eu não tinha visto ainda. É o seu trabalho de final de curso. Os professores já sabem que está publicado? Estou super feliz e orgulhosa! Parabéns

  2. Opa!

    Sobre o Everest e a China…

    Quero só ver quando começarem a morrer os turistas que chegam sem aclimatação ao base camp do Everest, afim de hospedarem-se em hotel!

    Isso não vai longe…

    Abrazos!

  3. ESTAMOS FAZENDO UMA PESQUISA E PRECISAMOS SABER QUAL ERAM AS ROUPAS E EQUIPAMENTOS UTILIZADOS PELOS ALPINISTAS BRASILEIROS EM 1912 PARA ESCALAR O PÃO DE AÇÚCAR.SE VOCÊ TIVER ALGUMA INFORMAÇÃO, AGRADECEMOS EM NOME DO MUSEU ABERTO DO BONDINHO PÃO DE AÇÚCAR

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