
Após o acidente veio o tempo de parar literalmente. Exames, probabilidades de cirurgia, imobilização com gesso, mais exames, até o veredito final. Total de 32 dias imobilizado, e um futuro breve de fisioterapia por tempo indeterminado. Mas a escalada e eu nos encontraremos um dia novamente, afinal quase uma década de união não termina assim.
A queda não teve seu glamour cinematográfico, foi mais uma coisa ridícula, uma paspalhada, um escorregão antes da primeira costura, e o tornozelo pagou caro por sua fragilidade diante da raíz de uma simpática árvore que dá boas vindas aos candidatos a escalar a via guardada por ela. O local não interessa, o grau não interessa. O erro foi só meu. E de julgamento. Com ele aprendi coisas interessantes, algumas que já sabia mas havia esquecido, outras novas. Uma fratura por avulsão, por exemplo, ocorre quando o ligamento (de tão forte que é) “puxa” um pedaço do osso em que está ligado.
Fiquei impressionado com a força de um simples ligamento. De tão forte, arranca um pedaço do osso, ao invés de se partir como um elástico. O ligamento manda bem. Mas um dos meus do tornozelo, coitado, se perdeu. Vai ter de se contentar, quem sabe, com uma vida mais mole, rodeado de fibroses que, talvez, lhe ajudarão a compensar sua fraqueza pós-traumática. Já o amigo ósseo tem um futuro melhor, deve se reestabelecer, seguirá sua vida quase normalmente.
Mas ainda não sei explicar ou distinguir exatamente quais são os motivos pela falta de novos textos por aqui. Acho que me senti parte de algo, um comportamento, e logo percebi que não gostava nem um pouco deste comportamento, e pior ainda, não era exclusividade minha, e sim de muita gente que frequenta a escalada: muito falatório, pouca escalada. No meu caso quem sabe, muito texto e pouca escalada, já que não sou de falar, sobretudo escalando.
Percebi tudo isso ainda melhor neste mesmo dia do acidente. No qual fiquei quieto praticamente o tempo todo. Era realmente um dia atípico. Chovia em pontos isolados da região, assim somente uma falésia poderia estar seca naquele dia, e consequentemente, todos iriam escalar lá. Falésia cheia, base das vias parecendo reunião de família, muito falatório.
Eis que mesmo quieto, sem falar uma única palavra, não fui poupado pelo falatório alheio. Já bastante irritado em não poder me concentrar em escalar, e ser obrigado a ouvir o quão fantásticamente bons alguns e algumas ali eram, e como tais e tais vias de nono grau eram “seus projetinhos”, ou a pior de todas na minha irrelevante opinião: “ah essa aí eu já mandei com duas quedas”…
“Mandei com duas quedas” ??? Bom, quem entende o mínimo do mínimo de escalada esportiva já sabe – sem comentários.
Pois bem, voltemos. Fui dar “seg” para um amigo. O amigo me disse que era um décimo grau, e que estava trabalhando a via, ia dar uma entrada apenas para memorizar novamente os movimentos, depois deixaria o “top” armado caso eu quisesse tentar. Ok, eu disse. E o falatório seguia.
“Nossa essa via é demais, era meu projetinho, mandei com duas quedas, é muito gostosa essa via, é um nono grau facinho, qual o nome da via mesmo? Bla bla bla bla bla bla.”
Quer dizer, a via era seu projetinho mas você não sabe sequer o nome da via? Pensava eu já sem esperanças de ter paz ali, enquanto tentava quase inutilmente me concentrar na “seg”. Meu amigo desce após chegar na parada. “Então, quer tentar?”, me pergunta. É claro , disse, afinal eu nunca perdi a oportunidade de entrar em vias que eu jamais conseguiria escalar guiando. Mesmo porquê, depois de nove anos escalando, deixei de me preocupar tanto com o grau da via em falésias esportivas. O grau para mim hoje é “consigo” e “não consigo”. Mas eu estava feliz em ter um décimo grau ali equipado, com top rope, para poder entrar e brincar em seus negativos e regletes sem a preocupação de estar guiando, e muito menos de mandar. Apenas escalar e conhecer, e aprender.
E lá vem o falatório, desta vez em minha direção. “Ah mas é melhor você entrar em outra via mais facinha antes hein, esses regletes do começo são muito ruins. Ah é um décimo grau ein, melhor não ein, vai doer os dedos ein” e bla bla bla novamente. Eu comecei a me perguntar se aquilo era comigo, bastante surpreso inclusive, já que eu nunca me intrometo em escaladas alheias.
Parto do princípio de que se você está ali na montanha ou na falésia para escalar, você deve saber o que está fazendo, ser responsável pelos seus atos, e arcar com as consequencias deles. E não se preocupar com o que outras duplas ou cordadas estejam fazendo, a menos que o que elas façam possa te atingir diretamente ou colocar em risco sua segurança, ou de outras pessoas.
Assim, jamais eu falaria para alguém não escalar de top rope qualquer via que fosse. De top rope o máximo que pode acontecer é a pessoa desistir, e descer. Assim como eu também jamais falaria para qualquer pessoa escalar ou não, qualquer via, de qualquer maneira. Sendo um grau de alta dificuldade, ainda assim, poderia me machucar, ter lesões nos dedos, braços, por tentar um esforço acima do que aguentaria. E mesmo com essa possibilidade, a escolha é só do escalador, e não do espectador.
Ao notar que tamanha imbecilidade era comigo, apenas me limitei a responder: “Escalo por prazer, não por grau”. E comecei escalar. Aliás, escalada muito boa aquela via, movimentos bem interessantes, boa técnica, um prazer. Cheguei no crux e a escalada acabou ali. Não consegui passar o lance. Tentei ainda umas duas vezes, mas era realmente impossível para mim, por enquanto. Um dia quem sabe. Não há motivos para preocupação. Por enquanto é só uma via grau “não consigo”.
Entardecia, os poucos amigos que tentavam escalar por ali resolveram ir embora. Eu, quis tentar uma última via, pois tinha ainda muita vontade de escalar em um dia de falatório interminável. Não escalei. Acabei preferindo quebrar meu tornozelo. Não foi fácil descer 40 minutos de morro naquelas condições, e agradeço os amigos que me carregaram no final da descida. Foi uma atitude de escaladores, não de faladores. Obrigado.
A saudade da rocha logo será saciada, são poucos meses para a recuperação, dá para aguentar. O que talvez não dê para aguentar no retorno às vias e rochas será o falatório. Terá ele crescido? Será que todos que começaram escalar ontem nunca ouviram falar no Código de Ética de Montanha disponível em vários sites por aí? Um deles, por exemplo, no site da federação paulista, cita por mais de uma vez a importância do SILÊNCIO em locais de escalada, e dá várias razões para se manter a paz local. Mas acabo de me tocar, quem fala demais, ouve de menos. Certamente não ouviram, nem ouvirão nada a respeito de códigos de ética em montanha. Eu mesmo naquele dia não ouvi meu (in)consciente ou meu coração, antes de entrar em mais uma via. O resultado foi aquele. Ligamentos rompidos e um osso fraturado. Mas uma coisa eu ouvi perfeitamente, o estalo de algo quebrando quando meu tornozelo bateu no chão. Esse estalo pode ser o que está faltando para muitos faladores se tornarem escaladores um dia. Mas sinceramente, espero que não, pois seria mais fácil levar a sério um texto de algum código de ética, do que quebrar ossos do próprio corpo. Escale mais, e fale menos. A natureza e todos os escaladores de verdade, agradecem.